terça-feira, 17 de outubro de 2017

THE LAST BUT NOT THE LEAST

Como perfeccionista assumida não gosto de deixar nada mal feito ou inacabado. Há muito, mesmo muito tempo que penso em passar por cá, ir publicando qualquer coisa para não deixar o blogue morrer. A vida tem-me mostrado que (quase) tudo tem um início, um meio e um fim. Independentemente da duração das diferentes fases, o fim é inevitável. Contudo, os fins não representam necessariamente a morte nem devem ser necessariamente encarados como algo negativo. Podem, simplesmente, significar o início de um novo ciclo, um recomeço, uma nova vida, vidas e realidades que podem coexistir em tempos e espaços diferentes. 

Depois de muito tempo sem escrever, senti que deveria fazer o derradeiro post. Por tudo o que este blogue significou para mim, por todas as pessoas que me foram seguindo através dele, pelas pontes e laços que me permitiu criar ao longo de toda esta jornada. Seria falta de brio da minha parte deixar este espaço ao abandono. 

Mas antes de o fazer, não posso deixar de resumir aqueles que foram os últimos 10 meses deste ano.
Ora então... No início de Janeiro, depois de, finalmente, terminar todos os exames da faculdade (finalmente fiz Química Orgânica II, yeah!), mudei-me para o Porto onde comecei a estagiar numa farmácia. Seguir o caminho mais fácil não é uma coisa que me assiste, já todos devem ter percebido. Mas desta vez, a ânsia de terminar este segundo curso (11 anos na faculdade, caramba) falou mais alto e optar por fazer estágio de 6 meses só na área de farmácia comunitária revelou-se a solução mais rápida para atingir o meu objetivo. Podia acabar o estágio em Junho, defender em Julho, tirar umas férias e relaxada, dar início ao processo de procura de emprego. 

Só que não... Ao longo dos 6 meses de estágio, na Farmácia do Bessa, onde fui tão bem recebida e integrada, fui percebendo que a minha cabeça não me permitia fazer 8 horas de estágio, que é como quem diz trabalho, sempre em pé, e chegar a casa e continuar a trabalhar, ora relatório de estágio, ora monografia. Não, não estava a aguentar. Depois de muitas mudanças de estratégia, de muitas lutas interiores e de alguma frustração, percebi e aceitei que o meu corpo não dava para mais e a minha cabeça não aguentava. E como perfeccionista que sou resolvi fazer uma coisa de cada vez: primeiro o estágio, com calma, e depois o relatório + monografia. Afinal podia sempre entregar e defender em Setembro... Com isto, o meu plano inicial de me tornar farmacêutica no início de Julho, antes de completar 30 anos de idade, saiu completamente ao lado! 

Terminei o estágio no final de Junho. Pelo meio, fui de Coimbra a Fátima a pé, rebentei-me toda (perdão pelo termo), vi o Santo Papa, rezei, respirei e libertei as minhas mágoas naquele espaço sagrado. 

Deixei o Porto, a casinha acolhedora da minha amiga Joana, o meu quarto azul, e enfiei-me na minha querida província, Julho e Agosto, a escrever... Não foi o melhor verão do mundo mas foi o que se arranjou!

O stress apoderou-se de mim, ter uma data de entrega estipulada, ver o tempo a passar, mil e um artigos sobre HIV na gravidez para ler, resumir e sintetizar informação e juntar tudo a 20 e tal páginas de relatório de estágio estava a deixar-me louca! Um documento final de 50 páginas para apresentar publicamente na faculdade em 20 minutos, aliado às mais diversas situações do quotidiano que iam surgindo e que me consumiam, deixando-me exausta, tornaram o meu dia a dia uma roda viva! 

A meio de agosto, sem jogar na lotaria, saiu-me a sorte grande. Do nada, um amigo abordou-me acerca da possibilidade de ir a uma entrevista a uma farmácia em Lisboa onde ele tinha começado a trabalhar. Achei que não perdia nada para além do meu precioso tempo e lá fui eu, só para ver como estas coisas de entrevistas de emprego funcionam. Num dia estava em Lisboa para ser entrevistada, no dia seguinte acordo com a chamada da Diretora Técnica da Farmácia do Colombo a perguntar-me quando poderia começar. 

Assim. Do céu cai-me um emprego, sem ter terminado o curso e sem ter feito uma única pesquisa no google sobre ofertas de emprego.

Já transpirava ansiedade por todos os lados... Depois disto, só deitava as mãos à cabeça. Mas como sempre, a minha família e amigos não me deixam ir ao fundo e com a ajuda de todos terminei a tese que não é tese mas é parecido, whatever.  No dia 1 de Setembro fui a Coimbra imprimir tudo, voltei a Felgueiras para fazer as malas, dia 2 mudei-me para Lisboa e no dia 4 às 9 da manhã estava a entrar no meu posto de trabalho. Uma cidade diferente, uma casa nova, pessoas novas, tudo novo aliado a um ritmo de trabalho alucinante e 360 Km de distância da minha Home Sweet home!

No dia 18 de Setembro, entre a saga de me apresentar, decentemente, no casamento de uma das minhas maiores amigas e apresentar, decentemente, o meu trabalho aos membros do júri, lá consegui safar-me! Escusado será dizer que perdi uns bons quilos, andava com umas olheiras até ao umbigo e quase caía para o lado com tanto cansaço! 

Mas sobrevivi e depois de 7 anos, repletos dos melhores e piores momentos da minha vida, sou, oficialmente mestre em Ciências Farmacêuticas!

Agora sim, posso realizar o meu sonho de criança, armar-me em Dra Carneira e Maria Micá e perguntar, por detrás do balcão da farmácia, com toda a convicção do mundo: "Quer um produto químico, natural ou assim-assim?" 


Agora é tempo de seguir. Fechou-se um ciclo, começa outro. Ainda não aprendi a lidar com o facto de não ter de estudar. Toda a vida estudei e digo muitas vezes que se pudesse, continuaria a fazê-lo. Mas por agora é tempo de acalmar. Arrumar os assuntos no lugar deles (a maior parte estão na minha cabecinha pensadora) e seguir em frente, relaxar e deixar que a vida aconteça.



Depois deste projeto furado de resumo, que demonstra a minha péssima capacidade de síntese e a importância que dou a cada pormenor, passo a explicar a razão de ter decidido colocar um ponto final neste blogue. Não é a morte dele, porque permanecerá disponível para quem tiver paciência e vontade  de saber a minha história. Mas é, definitivamente, o fim dele. A minha aventura no mundo do cancro não acabou, nem vai acabar nunca. A minha vida, o meu corpo, a minha personalidade e quiçá, a minha missão neste mundo ficarão para sempre marcados por este período de doença. Mas o que havia para contar está contado, porque a doença passou.

Daqui para a frente tenho, de 3 em 3 meses, consultas de rotina no IPO até perfazer os 5 anos de tratamento. Hoje, dia 16 de Outubro de 2017, foi dia de consulta com a Dra Ilídia. Antes disso, como é habitual e toda a gente sabe, faço análises ao sangue. Para variar chego tarde, enfrento a imensa sala de espera e respiro fundo antes de entrar para o gabinete de enfermagem. Passei a ter algum receio das agulhas que me espetam... O que antes era peanuts, agora dói, porque tenho alguns vasos sanguíneos impenetráveis como consequência da quimio. Mas também são só 4 vezes por ano, não há crise. A minha mãe sofre com isto... Diz que me torno transparente aos olhos dela. É uma descrição que me ultrapassa, porque não sou mãe e não atinjo a grandiosidade de tal sentimento. Um dia talvez o saiba. 
Segue-se o raio-x pelo qual implorei na última consulta. Já diz o ditado que gato escaldado de água fria tem medo e eu só quero fazer PET's e Raio-X para ter a certeza que o Barrabás morreu. Esse sim, tem o seu merecido fim.
A Dra Ilídia recebe-me com o sorriso cúmplice de sempre e diz-me que tenho o melhor raio x dos últimos 4 que fiz! Roda o ecrã do computador para mim e consigo ver a "cicatriz", o que restou do bicho de 12 cm reduzido a milímetros. As minhas análises estão impecáveis e levo um suave raspanete  por estar com baixo peso corporal e por não me alimentar como deve ser. Diz-me, entre risos, que tenho um problema de chupeta mal resolvido porque de vez em quando fumo uns cigarritos... É outro assunto a arrumar na gaveta cerebral quando a vida estabilizar mais um pouco. Até lá assumo os meus erros e consequências. Se tenho vergonha? Tenho. Mas esta sou eu, tal como sou, sem qualquer tipo de filtro ou escudo.

Saí do IPO com a alegria de sempre, a de viver. Fui passear um bocadinho com a minha mãe, apanhar ar e ver o mar. Revolto e a libertar o cheiro a maresia... Sinto-me renovada e de baterias carregadas!

Apanho o comboio para lisboa e entre uma boa soneca, um excelente livro e muita reflexão chego à estação de Santa Apolónia após 3 horas. Não me apeteceu apanhar o metro imediatamente e optei por caminhar até ao Terreiro do Paço. Há quanto tempo não passeio à noite por Lisboa? Apercebo-me dos contrastes, de um lado um barco de cruzeiro atracado, apinhado de turistas. Do outro lado da rua há uma carrinha de voluntariado a distribuir comida aos sem abrigo. Tenho de voltar ao voluntariado, está decidido. Continuo a caminhar, passo Alfama, observo os restaurantes típicos (a servir turistas), o museu do fado, o chafariz, o campo das cebolas que continua em obras... Vêm-me à memória uma série de recordações felizes de bons momentos que vivi nestes sítios, com pessoas diferentes, em momentos diferentes. Como gosto de Lisboa... Sinto-me, confortavelmente, em casa e fico contente com esse feeling. Conto pelos dedos os poucos lugares por onde passei e me fazem sentir assim.    Continuo a caminhar e deslumbro-me mais uma vez com a grandiosidade desta cidade. Não me canso.
Paro e penso. É urgente chegar ao equilíbrio, aquele que fica entre o conforto e o desafio. Tenho 30 anos e as rédeas foram-me devolvidas. Não me vou acomodar, não me vou deixar levar, só porque sim, só porque é mais fácil. Vou seguir o coração, vou deixar surpreender-me por aquilo que a vida tem para me dar, para o bem e para o mal.

Hoje disseram-me "cada viagem é uma viagem e há sempre coisas boas nelas. Às vezes não é preciso ir muito longe". Eu acrescento, citando o Nobel Saramago, "O fim duma viagem é apenas o começo doutra".

E assim me despeço. Com o coração cheio e com a certeza de que este caminho tortuoso valeu pelas coisas boas que me proporcionou, pela força que me trouxe e pela pessoa melhor que hoje sou.

Resta-me agradecer a todos os que me acompanharam, dia após dia, de longe ou de perto. 
Aos meus pais e ao meu irmão que são o que de mais sagrado tenho na vida.
À minha avó que, mais ou menos consciente da minha situação, nunca me deixou dormir sem se certificar de que estava confortável, deixando-me sempre um beijo de boa noite à cabeceira.
A todos os meus familiares, avós, tios e primos que me acompanharam, me confortaram, e me faziam soltar gargalhadas no meio do caos.
Aos meus Amigos que nunca me largaram a mão... As vossas conquistas, a vossa felicidade é minha também porque, afinal, são a família que escolhi!
Ao Pedro, por todo o amor e carinho. Ser-te-ei eternamente grata.
A todos as pessoas que foram mantendo contacto comigo, às que voltaram e ficaram, pelas mensagens, apoio e solidariedade.
A todos os profissionais de saúde, pela sensibilidade, amizade e carinho com que me trataram.


Sem cada um de vós não estaria aqui hoje.


OBRIGADA!




22 comentários:

  1. Notável! Boa sorte para a tua nova caminhada! Que a coragem seja sempre a mesma, cabeça erguida e muita fé no coração.. Beijinho grande**

    ResponderEliminar
  2. És uma verdadeira guerreira,minha Guidinha que lindo ser humano te tornaste, és uma mulher maravilhosa.
    Muitos beijinhos linda, linda.

    ResponderEliminar
  3. Estou muito feliz, porque o dia de fechar esta página chegou finalmente!Eu sempre soube e acreditei que o desfecho seria este,para mim não fazia sentido ser de outra forma.
    Minha querida Margarida,agora ao virares a página e porque tudo voltou à normalidade, aproveita essa cidade linda(orgulhosamente como Alfacinha que sou),e tudo o que a vida tem para te dar,que ainda vai ser muito porque tu mereces tudo.
    Beijos grandes da sempre amiga Susana.


    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada Susaninha! Por estar desse lado, deste lado sempre que se proporcionou e por ser a comentadora mais assídua do meu blog! :D :D Um beijinho muito grande!

      Eliminar
  4. Olha Margarida desde que decidistes escrever e escolher o título do blogue estava visto que o desfecho seria este, aliás desde o primeiro dia que tudo isto começou era o meu sentimento mais profundo que tu irias vencer,mas o que mais adorei no meio desta confusão que foram as nossas vidas,foi ler apaixonadamente os teus posts, aguardava ansiosamente o que tinhas para nos dizer através da tua maravilhosa escrita, sempre de uma forma inteligente, verdadeira, afectuosa assim transparente como o teu sorriso e boa menina que és.
    Obrigada pelas emoções que me fizestes sentir e pela lição de vida que me ensinaste a encarar momentos terríveis,
    Um grande beijinho com saudades dos nossos lanches e convívios que no meio da turbulência ainda nos ríamos muito.
    Com muito orgulho de ser tua prima, (sempre que saíres da farmácia olha para o estádio da Luz e pensa em mim), até logo, Verinha.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ah os nossos lanches! Dentro ou fora de casa, sempre foste uma grande impulsionadora para a minha boa disposição e bem-estar!
      E sim, garanto-te que me lembro de ti todos os dias, principalmente quando entro às 8 e tenho de contornar o Colombo a pé para entrar na farmácia! E também vendo muito panadol e rennie depois dos jogos! eheh
      Beijinhos para a melhor prima :)

      Eliminar
  5. Que nunca nos esqueçamos de agradecer esta Graça da tua recuperação!Que Deus continue a abençoar-te, querida filha!

    ResponderEliminar
  6. Grande Guida! Há histórias que nos inspiram e fazem valorizar tudo o que temos! E a tua é assim, sou grata por te ter conhecido, por fazer parte desta história e por continuar na que aí vem. Espero! Beijinho do tamanho do mundo! Mara Jesus

    ResponderEliminar
  7. Lindo Margarida. Obrigada por me fazer viajar na sua grande viagem. Parabéns pelo final do curso ( que também é o do meu filho José Pedro). Felicidades para a nova etapa! Desejo-lhe o melhor da vida! Desafio-a a escrever um livro. Escreve lindamente. Parabéns mais uma vez . Bjinho enorme .

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada! Por agora vou só dedicar-me à farmácia e a viver bem a vida!
      Espero que o José Pedro esteja bem!
      Obrigada por estar desse lado.
      Um beijinho

      Eliminar
  8. Respostas
    1. Sempre foste pessoa de poucas palavras. Mas sempre acertadas!
      Obrigada pela amizade e companhia :)
      Beijinhos

      Eliminar
  9. Olá Margarida, fiquei radiante com as boas noticias, também tinha muita fé no teu restabelecimento total.Agora é tempo de seres feliz e acreditares muito em ti, porque... tu é que és a maior :)!! Vou fazer- te uma confidencia, quando leio o que escreves não consigo parar de chorar, não porque me faças sentir triste mas sim porque a forma maravilhosa como escreves é tão sensível e verdadeira que me emociona profundamente.Beijinhos.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Zé Mário, tenho orgulho em que tu e a tua belíssima família façam parte do meu seio familiar mais querido e precioso. És um pai extremoso, um "irmão" verdadeiro e não há preço que pague a tua companhia. Eu também choro a rir contigo e nem imaginas como isso me faz bem à saúde, à alma! Que permaneçamos assim sempre!
      Beijinhos

      Eliminar
  10. Para além de gira, és uma óptima contadora de histórias. Obrigada por partilhares a tua!
    (Hoje o nome deste blogue faz ainda mais sentido)
    Beijinhos :*

    ResponderEliminar
  11. Muito bem, Margarida. Fico feliz por si. Uma vida cheia de sucessos! Beijos

    ResponderEliminar
  12. Muito bem, Margarida. Fico feliz por si. Uma vida cheia de sucessos! Beijos

    ResponderEliminar