terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Step by Step

Há muito que digo que sinto falta de fazer exercício físico. Sinto falta das corridas e natação, essencialmente, mas também das aulas de ginásio mais intensas como o Zumba (gosto tanto de dançar!), o Jump, o cycling... Na verdade, o que sinto falta é da sensação de bem-estar que o exercício físico me proporciona. 

Ontem fui, de certa forma, "desafiada" pela minha amiga Ana e pela Pi para voltar a exercitar o corpo. Confrontaram-me ambas com uma foto da Sofia Ribeiro no ginásio, a fazer suar a careca, literalmente. Pensei cá com os meus botões que em vez de me andar a queixar da falta que o exercício me faz deveria, de um vez por todas, exercitar-me. 

A Dra Ilídia aconselhou-me a evitar os ginásios, diz que é um ambiente propício para contrair infeções, o que não convinha nada. Eu cá não acho que tenha assim tanto problema, depende do ginásio... Mas acatei a recomendação dela. No entanto, não é por isso que tenho de levar uma vida sedentária, certo? Está frio, muito frio, mas o sol é tão quentinho que não dá para lhe resistir! Por isso hoje saltei do sofá, vesti um fato de treino, escolhi um cachecol e enfiei um gorro, calcei as minhas "tilhas"de corrida e saí para a rua. Aqui em Felgueiras os espaços verdes não abundam e para ir até à alameda de Santa Quitéria (local muito agradável para praticar desporto) tinha de pegar no carro... Acabei por optar pela pista de atletismo da zona desportiva: tem um bom piso e fica perto de casa!


"Quanto mais cansado te sentires, menos ativo ficas, o teu corpo fica mais fraco, os movimentos tornam-se difíceis e... cansativos. É um círculo vicioso."

A fadiga é um dos principais efeitos secundários da quimioterapia. Eu, por exemplo, nunca senti tanta necessidade de dormir como sinto agora. Levantar-me da cama demora séculos e, grande parte das vezes, acordo cansada. Mas, aparentemente, a solução está em contrariar esta tendência e manter alguma atividade! Os efeitos não são só físicos, há uma componente psicológica fundamental em todo este processo... E o exercício físico é uma terapia de primeira linha!

A Sofia fez 3Km. Eu não lhe fiquei atrás e fiz 3,25Km em 37 minutos. Nada mau!

Vou dar luta ao sofá, à preguiça, à inércia corporal.

Declaro aberta a época das caminhadas! 



sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Capa negra de Saudade

Não acredito que haja alguém neste mundo que goste de despedidas. Não me refiro ao simples "até amanhã" ou "até um dia destes" que tantas vezes pronunciamos, por vezes com uma certa leviandade. Refiro-me à despedida de verdade, o dizer adeus a algo que sabemos que, a partir daquele momento, deixa de pertencer à nossa realidade para passar a pertencer, definitivamente, ao passado. 

Hoje foi um dia de despedida. E por isso não foi o dia mais feliz dos últimos tempos... Tive de voltar a Coimbra, retirar da minha (ex) casa o que restava dos meus pertences. 
Foi um misto de emoções. Sair da IC2 e entrar na Fernão de Magalhães sempre me deu uma sensação de bem-estar inexplicável, como muito poucos locais me suscitam. O percurso contrário causou-me uma angústia inesperada... Sinto que não me despedi da minha cidade como deveria. Como diz o Pedro, não fiz o "luto". Foi uma saída atabalhoada, à pressa, contra a minha vontade. E isso agonia-me. 
Sei que vou lá voltar (até porque não acabei o curso) mas não será como antes, não sei bem explicar. O que eu sei é que levo esta cidade entranhada em mim. Sei que se fechar os olhos consigo reconstituir os mais diversos cenários, tão característicos, recordar os pormenores e transportar-me até lá. Não vou esquecer as corridas junto ao meu Mondego, os passeios no bambuzal do Choupal, a Universidade, a Alta, o Botânico e a Sereia, a paz da igreja de Santa Cruz, os momentos em torno do cheesecake e do chá das galerias, desde sempre e com as mais variadas pessoas. 

No caminho para casa lembrei-me que não fiz o registo fotográfico dos breves momentos que passei hoje com alguns amigos. Ando com esta mania de tirar um fotografia com todos aqueles que me vão acompanhando e com quem me vou reencontrando. Mas não faz mal, sei que estaremos cá todos para viver mais bons momentos, ainda que, eventualmente, breves. Que importância pode ter uma fotografia quando vos levo a todos no coração? Aos de hoje e aos de sempre. 
Nesta bela cidade vivi os melhores e piores momentos da minha vida. Formei-me enquanto pessoa e profissional. Fiz alguns dos meus maiores amigos, amigos para a vida, estou certa. E por isso vou amar e ser eternamente grata a esta cidade, por tudo o que me trouxe e pelo que fez de mim.

Coimbra é, para sempre, nossa!!





quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

É carnaval, ninguém leva a mal!

Antes de mais, preciso de confirmar que há, de facto, luz ao fundo do túnel. Na consulta de rotina que tive na segunda, fui vista por uma substituta da Dra Ilídia, uma vez que esta se encontrava doente. Já não me lembro do nome da médica, mas era igualmente simpática e querida. Mostrou-me o 1º e último raio x que realizei... Há uma diferença abismal, creio que o linfoma de 12 cm deve ter sido reduzido a metade, só com 2 ciclos de quimioterapia. Ficamos radiantes, eu e a Sarita, que me acompanhou naquela consulta. Já suspeitava, mas entre suspeitar e visualizar vai uma grande diferença. É que no princípio, para além de sentir os efeitos daquela quimio pesada sentia também dores, provocadas pela compressão do linfoma no pulmão e vértebras, bem como umas palpitações que me impediam de dormir descansada... Agora já só sinto os efeitos da quimioterapia, que, entretanto, também se tornou mais leve. Continuo sem dormir uma noite seguida mas isso é por causa das variações bruscas de temperatura corporal que sinto devido às alterações hormonais que a quimio causa. Adiante...

Tive pena de não ter encontrado a Dra Ilídia. Sei que ela iria dar uma grande gargalhada quando me visse com uma peruca roxa! A ideia foi da Pi, comprou perucas para mim, para ela e para a Sarita e lá fomos nós naquela bonita figura para o IPO. Foi o meu carnaval, e foi um carnaval especial. Não me mascarei a rigor, não tive jantar com os amigos e não fui sair à noite. Mas arrancamos sorrisos naquelas salas e corredores. Ainda que fugazes, foi uma boa recompensa! 



Depois da consulta com a médica fui à tão esperada consulta de nutrição. A nutricionista, tão jovem quanto eu, procurou saber quais as minhas dúvidas em relação à alimentação. Quando lhe disse que tinha ganho algum peso (penso que devido ao corticóide que faço) focou-se completamente nesse aspeto. Foi um consulta de nutrição, não de nutrição oncológica. Não acrescentou nada de novo aquilo que eu já sabia e já tinha lido. Aliás, no que diz respeito a dicas para contrariar náuseas, não disse mesmo nada de jeito. Proibiu-me as framboesas (bolas!!) e as saladas, mesmo que devidamente "amukinadas"... Um dia destes faço um post sobre dicas de alimentação. Há imensas coisas que, por serem tão naturais e banais no dia a dia, nem nos passa pela cabeça que possam constituir um perigo!

Depois desta consulta e como só tinha hospital de dia às 15.30, fomos todas almoçar. A Bé só saiu às 14h do S. João e, com uma hora de almoço apertada, não pudemos ir muito longe. Ficamos por ali mesmo e encontramos uma casa de hamburguers artesanais (ai se a nutricionista sabia...). Não eram nada de especial. Especial foi a companhia. Somos amigas há muitos anos e momentos assim, só das quatro, são cada vez mais escassos e, por isso, são momentos únicos!



No final, a Pi e a Bé foram à vida delas e eu e a Sarita voltamos ao IPO, ao hospital de dia. Nunca esperei tanto tempo até ser chamada, foram quase 2 horas! No entanto, nunca o tempo passou tão rápido como desta vez... Não há melhor rede social que uma sala de espera! Pela primeira vez meti-me à conversa com os meus companheiros de luta. 

Conheci a Paula, uma senhora da idade da minha mãe, um pouco mais nova talvez. A Paula contou-me o percurso todo dela... E que percurso! Já conta com 31 sessões de quimioterapia, está toda metastisada. Disse-me que não tem um cancro, tem vários. Tantos que nem sabe quantos são. Esteve tão mal que lhe ofereceram um quarto privativo nos cuidados paliativos, para lhe poderem proporcionar uma morte mais "digna". Milagrosamente começou a melhorar e neste momento faz quimio atrás de quimio para se manter viva. O que a faz lutar é o sorriso da filha, do marido e dos pais logo pela manhã. Não tem qualquer outro objetivo de vida se não esse. Algo tão simples e tão essencial... Senti-me pequena, tão pequenina ao lado dela! 

Ao mesmo tempo que a Paula descrevia a sua experiência conheci um senhor, também ele da idade do meu pai, mais coisa menos coisa. À filha dele, que estava na sala de tratamento a fazer a 1ª quimio, foi diagnosticado o mesmo tipo de linfoma que me foi diagnosticado a mim. A partir do momento que tomou conhecimento deste facto o senhor nunca mais me "largou". Fez pergunta atrás de pergunta, como se eu fosse um anjo caído do céu pronta a responder a todas as suas dúvidas. Estava visivelmente perturbado e preocupado com a sua querida filha e com a forma como ela está a encarar a situação. Saquei do meu caderninho azul da Sandoz que o Pedro me deu e rasguei uma folha onde escrevi "Linfoma feito ao bife". Entreguei-lha para que ele a entregasse à filha. Gostava de a ajudar, mostrar-lhe que o futuro parece negro mas podemos aclará-lo se assim o quisermos. Vi  espelhado na cara dele o sofrimento e lembrei-me do meu pai. Tal como ele, aquele senhor diante de mim repetia vezes sem conta que faria o necessário para tornar a caminhada que a sua filha está prestes a enfrentar menos penosa. Tal como o meu pai, ele só lhe queria tirar as pedras do caminho. O pai da Paula também lá estava na sala de espera. Afinal todos os pais e mães querem o mesmo, amparar as quedas dos filhos, ajudá-los a levantar e a enfrentar o caminho de novo. 

Quase fizemos uma festa quando às 17.15h chamaram pelo utente das 15.30, Sala 1, cama 106! Lá nos instalámos, eu melhor que a Sarita, claramente! Catéter na mão, injeção de anticorpo na barriga e estava tudo pronto para a tão esperada soneca!


Até adormeci com a cabeleira posta! A pobre da Sarita é que ficou ali a olhar para mim e a atender os meus telefonemas, como se de uma secretária se tratasse! "A Guida está a dormir", "O tratamento começou tarde por isso não vamos daqui muito cedo!" ouvia eu, meia a dormir, sem abrir os olhos... Vá não foi assim tão mau, às 9 da noite já estávamos em Felgueiras! 

Saí de lá com uma sensação de cansaço extremo, como é habitual. Nunca corri uma maratona, mas a sensação não deve ser muito diferente! No dia seguinte a sensação mantém-se. Só mais tarde vem os enjoos e outras coisas mais. Não são fortes, não me impedem de comer, mas tenho de me obrigar um pouco. É um mau estar geral, física e psicologicamente. 
Mas passa, tudo passa!

Agora é aproveitar, da melhor forma possível, os 15 dias de descanso que aí vem! :)


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Hoje é dia de...Químio!

Primeiro dia do quarto ciclo. Não é o dia mais agradável mas é, provavelmente, o mais certo, o mais previsível. Não há que ter medo deste dia. É chegar cá, tirar sangue para análise, ir às consultas e, por fim, hospital de dia. Ser picada não é nada do outro mundo, nunca foi coisa que me custasse. E por isso a químio não custa muito. Hoje ainda menos, já vi que vou ter direito a uma cama!

Hoje sinto-me muito bem disposta. Mais uma vez, dei uma folga à minha mãe e vim acompanhada das minhas amigas. Como é Carnaval, deu-nos para adotar nomes fictícios (entre outras coisas). Para já, estamos 3, eu, a Sheila e a Natasha. Daqui a pouco a Janete, que despega às 14h, junta-se à trupe para um almoço de gajas. Só tenho spa às 15.30h - vamos sair daqui a umas horas bonitas - e por isso posso dar-me a estes luxos!

O tratamento está cada vez mais perto do fim. Há luz ao fundo do túnel. De cada vez que entro neste edifício dou um passo nessa direção. Não vejo a hora de me ver livre disto!
Entretanto vou pôr a conversa em dia com as "migas", enquanto esperamos pela consulta com a Dra Ilídia.

Beijos e abraços,
Priscilla

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Dia Mundial da Luta Contra o Cancro






"Para muitos é só mais um dia. Para outros é mais um dia sim, mas de esperança, um dia de luta, um dia de fé, um dia de motivação."


Sendo hoje o Dia Mundial do Cancro, ou da luta contra o cancro, não poderia deixar de falar sobre ele. Confesso que este dia sempre me passou ao lado. Entendia-o como um dia em que era assinalada a doença e se lembravam as pessoas que lutam contra ela, ponto. Hoje, alcancei uma perspectiva completamente diferente da que tinha e, penso eu, que a maioria das pessoas têm. Atrevo-me a dizer que o Dia Mundial do Cancro devia ser como o Natal, todos os dias e quando o Homem quiser. Porquê? Porque hoje é um dia de consciencialização, sensibilização, alerta e intervenção. O objetivo deste dia é atrair as atenções para a doença, mas mais do que isso, para tudo o que está ao nosso alcance fazer por ela. É dia de, concertadamente, encorajar a sociedade, os governos, os profissionais a investir na prevenção, detecção precoce e acessibilidade ao tratamento.

Hoje saiu com o Jornal de Notícias uma pequena revista, a "Onco Atual", que reúne algumas entrevistas e artigos de opinião de especialistas da área. Um desses artigos, elaborado pela presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia, aborda o cancro de uma forma global, explorando números e estatísticas relacionados com incidência e mortalidade. A informação contida neste artigo, clara e sucinta, é um abre olhos para o leitor. Por esse motivo, pensei que seria bom partilha-la aqui.

Então cá vai.

Sabiam que...

·   Surgem no mundo 14 milhões de novos casos de cancro por ano? Morrem, todos os anos, cerca de 8 milhões de pessoas vítimas de cancro, sendo que 4 milhões de mortes ocorrem em idade prematura (30-69 anos). Os avanços na tecnologia, que proporciona mais conhecimento sobre a doença e avanços nos tratamentos, duplicaram as taxas de sobrevivência nos últimos 40 anos. No entanto, estima-se que em 2025 as mortes em idade prematura devido ao cancro aumentem para 6 milhões.

·    Em Portugal, o cancro é a segunda maior causa de morte, mas a primeira de mortes prematuras abaixo dos 65 anos?

·    25% dos cancros são evitáveis? Como? Apostando na prevenção primária e secundária.

Passo a explicar:
- A prevenção primária diz respeito ao controlo dos fatores de risco: tabaco, álcool, regime alimentar desequilibrado, sedentarismo, entre outros. Por exemplo, só o tabaco é responsável por 20% dos cancros. Destes 20%, 70% são cancros do pulmão. Outro fator causador de cancro são as infeções virais. O papiloma vírus humano (HPV), um dos agentes responsável pelo cancro do colo do útero, cancro na cavidade oral e orofaringe, causa 20% das mortes por cancro. O álcool e obesidade são também dois fatores de risco de enorme relevância no desenvolvimento de tumores.
- A prevenção secundária, por sua vez, é feita através de rastreio e diagnóstico precoce. 

É urgente um investimento na luta contra o cancro. Um investimento financeiro e ao nível das políticas de saúde que assegurem, em tempo útil, tratamentos de primeira linha a todos os indivíduos e a promoção de rastreios nacionais que permitam que cancros rastreáveis sejam, efetivamente, rastreados. Se isso se traduzir numa intersecção da doença, num tratamento em fase de pré-malignidade, todo o mundo sai a ganhar. É dinheiro que não se gasta e, por isso, justifica o dinheiro que se investe. 

Investir em programas educacionais, aumentar a literacia da população é outra medida urgente. "Só conhecendo o cancro podemos lutar eficazmente contra ele!". Neste ponto, e puxando a brasa à minha sardinha, há muito que defendo que o farmacêutico pode ter um papel importante junto da comunidade, não só na transmissão de conhecimento, na consciencialização, como no auxílio da adoção de estilos de vida saudáveis. 

Por último, é necessário um investimento na investigação científica nacional. Portugal investe muito pouco em ciência... Ao invés, forma muito bons profissionais que acabam por cair no desemprego e na precariedade. E depois exporta-os, sem receber nada em troca. O panorama seria bem diferente se valorizassem e olhassem para a boa ciência que se faz por cá, para as boas cabeças que cá temos, como receita e não como despesa...


Para terminar... Antes de ler a revista tinha pensado partilhar uma crónica do Lobo Antunes que li há uns tempos, em jeito de homenagem a todos os Heróis das salas de quimioterapia. Partilho-a à mesma. É tão real como bonita.