quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Reta final!! :D

Mais uma semana, sete dias carregados de acontecimentos marcantes. Uns bons, outros maus, uns esperados,outros nem por isso... De todos eles, destaco os positivos, nomeadamente a visita dos meus amigos, que vieram de Lisboa, onde vivem e trabalham, apesar de serem uns transmontanos e minhotos de gema! Tanto a Ana, como o Kiko, como a Bia, são meus amigos há muitos anos e são aquele tipo de amigos que estão sempre longe e ao mesmo tempo sempre perto. Toda a gente tem um ou outro amigo assim. Eu gosto de pensar que sou especial no toca a matéria de amigos desta categoria, porque não tenho um ou dois, tenho uma mão cheia deles!

Primeiro a Bia, pequenina em altura, grande de coração, que veio alegrar a minha tarde de estudo com uns docinhos e um chá, algumas horas de conversa e um abracinho forte, cheio de boas energias!



Depois a minha Ana Maria (aka Sardinha) que aproveitou a escapadela do seu Manel  para vir passar um fim-de-semana a Felgueiras. O fim-de-semana afigurou-se curto, mas foi suficiente para dar uns belos passeios, aproveitar o sol e ainda nos proporcionou umas aventuras que envolvem cães da raça Yorkshire perdidos - ou abandonados (mas nem quero pensar nisso) - em plena auto-estrada!



A Ana é aquela amiga, meia maluca, que se conhece na universidade e que marca a vida de quem se cruza com ela, pela sua genuinidade, espontaneidade e, claro, por ser mais que uma amiga, uma irmã!


Esta semana tive de ir três vezes ao IPO. Na segunda tinha análises e consulta, terça tinha de ir fazer a PET e na quarta a quimio. 
Como devem imaginar a minha vontade de lá ir três vezes era mínima e, apesar de ter dormido em casa da Pi no domingo (e por isso já estava no Porto), consegui chegar atrasada às análises. Sair da cama de manhã é uma odisseia!! O que vale é que nas recepções dos serviços por onde passo ninguém se chateia comigo por não chegar a horas, assim até espero menos pela consulta :)

A Pi, sempre presente, acompanhou-me desta vez na consulta e teve o prazer de conhecer a querida Dra Ilídia. De olhar ternurento, gaba-me sempre o turbante que faço com os meus lenços e deu uma gargalhada contagiante, tal como esperava, quando a Pi lhe mostrou a nossa fotografia com as perucas de carnaval!
As análises estavam mais ou menos boas, mas nada de preocupante. Não me impediu de fazer o tratamento e aumentou-me as injeções que estimulam o corpo a restabelecer os níveis sanguíneos no período de descanso entre quimios. Marcou-me, como sempre, um raio x. Ou melhor, tentou marcar! O sistema não funcionava nem por nada e acabei por não conseguir fazer o raio x nesse dia. 
À hora de almoço estávamos despachadas e fomos almoçar as duas, como já não fazíamos há muito tempo, mas desta vez com vista privilegiada para o Douro!



 No dia seguinte, terça-feira, tinha a PET marcada para as 13:30. Ainda tentei fazer o raio x que a Dra Ilídia tinha pedido mas continuava sem estar marcado. Telefone para aqui, telefone para ali, nada feito. E com isto já estava atrasada para a PET. 

A PET é um exame que demora bastante tempo pela preparação que requer. É-nos injetada uma solução radioativa e temos de esperar que esta percorra todo o corpo. Depois vamos à máquina de TAC e é rápido mas até lá são umas três horas que ficamos à seca. Ainda por cima temos de ficar quietinhos e sempre na mesma posição para que haja uma distribuição uniforme da solução. Nada de ler, levar o telemóvel ou tablet. Ou dormimos ou ficamos a pensar na morte da bezerra! 
A enfermeira vem com uma barra de metal que me faz lembrar um supositório em tamanho gigante! Desmonta-o e sai de lá uma agulha com a substância radioativa. "Sabe que não pode estar com grávidas e crianças no dia de hoje não sabe? E quando for à casa de banho tem de puxar o autoclismo duas vezes?" Sim, já sei isso tudo! Depois de uma hora à espera para ser chamada, fiz o exame e saí às 18:15h. Sem comer. Valeu-me a minha mãe que pensa em tudo. Às 7 da manhã de terça-feira acordou-me e levou-me o pequeno almoço à cama, assim perfazia as 6 horas de jejum e sempre ia com o estômago mais confortável! 

Quando saí tinha o Kiko à minha espera. E agora preciso de contar o porquê de ser amiga do Kiko. Não somos da mesma terra, não tiramos o mesmo curso e nem sequer estudamos no mesmo sítio. Ele é de Vila Real e vive em Lisboa. Mas é, desde sempre, o melhor amigo de uma grande amiga minha e, por caminhos tortuosos, tornam-nos amigos também. Conhecemos-nos no dia em que o namorado dessa nossa amiga morreu, de cancro. O cancro uniu-nos nesse dia e insiste em não nos largar. O Kiko está a recuperar neste momento de um cancro, eu estou a tratar e hei-de recuperar dele também. O Frederico (já estou farta de escrever Kiko) é enfermeiro no IPO de Lisboa, trabalha com cancro todos os dias e disse-me, ainda ontem, que não se vê a trabalhar noutro lado, porque precisa do doente oncológico, são eles que o fazem sentir realizado e feliz no trabalho, apesar de ganhar uma ninharia ridícula, como tantos enfermeiros ganham por este país fora. Assim, e como podem constatar, o Kiko é um ser especial, de uma candura e sensibilidade que poucos homens têm.





Sempre que ia a Lisboa nunca conseguia ver o Kiko, pois ele além de enfermeiro dedicado é professor e está a tirar a especialidade. Tem por isso uma agenda ocupadíssima! Não nos víamos há quase 2 anos. Não nos reencontramos nas melhores circunstâncias, mas assim que o encontrei parecia que tínhamos estado juntos no dia anterior numa qualquer esplanada a dar duas de treta. Continua tudo igual o que me leva a crer que esta amizade será para sempre.

Fomos jantar, levou-me à quimio no dia seguinte, foi meu motorista e indiquei-lhe o caminho para o estabelecimento de Felgueiras onde se comem umas panquecas com mel de fazer crescer água na boca. Tratamo-nos bem, portanto!
Hoje foi embora, e sinto a falta dele. Fez-me lembrar de quando era mais nova e a Valéria, minha amiga e futura mamã, passava uma semana e tal em minha casa no Verão. Eram 24 sobre 24 horas juntas e sempre que se ia embora sentia muito a falta da minha companheira! Com o Kiko ficou a pairar o mesmo sentimento e por isso fica a promessa de que quando for a Lisboa ter com o Pedro vamos todos comer uma grande sushizada... Sim kiko, não penses que me esqueci! ;)

Para terminar e acabar bem o dia, recebi um raminho de umas flores vermelhas cujo nome não consigo reproduzir... A tia Irene, mesmo que queira comentar aqui no blog não vai conseguir fazê-lo (há determinadas pessoas que não conseguem mesmo) e por isso vou-me manter na ignorância! 


(Pedro, estou pronta para casar!! :p )

Mas não podia deixar de partilhar aqui estes miminhos que, de vez em quando recebo, e me deixam muito feliz.

Faz-me sentir que gostam de mim, que se preocupam comigo e que me têm no pensamento. Sei que estou no pensamento de muitas, muitas pessoas, todos os dias. As mensagens continuam a chegar e sinto-me cheia de energia (apesar de ter feito quimio ontem), transmitida por todos os me acompanham, de longe ou de perto, por saber que já só falta um ciclo, pelo fim-de-semana que se aproxima (e que com ele traz o meu amor) e por saber que esta fase, apesar de má, vai ser passageira. Só é preciso um bocadinho de paciência e "botar" um sorriso na cara, como diz a música!

E é com o meu sorriso que vos deixo. Um sorriso e uma carequinha orgulhosa!
Beijinhosss






quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Diagnóstico - Parte III (e última!)

Falta-me aqui contar como fiquei a saber que tinha um cancro. Podia ter resumido a história do diagnóstico num único post e assim contava-a de uma só vez... Mas vou-me lembrando deste e daquele pormenor e acabo por divagar. Foi quase há um mês que descrevi a fase do internamento nos HUC e por isso já devem ter perdido o fio à meada... 

Basicamente, depois de passar 10 dias no hospital a curar a pneumonia, tive alta no dia 20 de Novembro e vim para casa esperar pelo resultado das biópsias. O que se sabia até ali era que havia uma massa de células anormais, com um tamanho considerável, e a principal suspeita era um tumor no Timo. Se assim fosse, a cirurgia era a solução. Fácil e rápido de resolver. No entanto havia outra possibilidade, possibilidade essa que todos os médicos me omitiram, à excepção da Eliana, que era ser um linfoma. Era tão pouco provável que nunca pensei muito nisso. Andava ansiosa com tudo o que estava a acontecer, a espera de resultados estava a dar cabo de mim... Tentava estudar, para me abstrair do assunto e tentar fazer algumas cadeiras, mas,  simplesmente, não dava. Insistia em permanecer em Coimbra e ir aos exames, afinal não tinha nada a perder. Por outro lado, quando me chamassem do hospital para saber dos resultados era só sair da faculdade e ir ao hospital que fica ali ao lado! Pensei em tudo e, mais uma vez, saiu tudo ao contrário. 

Na madrugada de 2 de Dezembro senti uma dor fortíssima no peito, semelhante à dor da pneumonia, mas muito mais intensa. Acordei sobressaltada, respirei fundo e deixei-me ficar quietinha a ver se passava. Era uma dor intermitente, que de repente me invadia e me cortava a respiração. De manhã cedo pedi à Marina, minha amiga e colega de casa, que me levasse às urgências. Era essa a indicação que tinha por parte dos médicos da Pneumologia.  Nem queria acreditar que estava ali outra vez... Felizmente não estava muita gente e fui rapidamente atendida. Parecia que tudo se repetia. As mesmas perguntas, o mesmo procedimento... A médica mandou-me sair para fazer análises e pediu para depois aguardar na sala de espera. Passado uns minutos a médica voltou a chamar-me ao consultório. "Tão rápido?", pensei eu. Estranhei a atitude dela, achei-a nervosa. "Recebemos o resultado dos exames que fez enquanto esteve aqui internada". Fiquei calada, à espera que continuasse. "A Margarida tem um linfoma". 
Lamentou dar-me a notícia e disse-me que o médico hematologista já tinha sido chamado e viria à urgência falar comigo. Pediu-me para aguardar lá fora. Eu fiquei sem reação. Acho que não falei, não lhe respondi a nada do que disse. Levantei-me, saí e deixei-me cair numa cadeira. Não sei quanto tempo estive ali, a olhar para o nada e com a cabeça a mil. 
Peguei no telemóvel e liguei à minha mãe. Menti-lhe sobre o facto de saber o diagnóstico e disse-lhe para vir com o meu pai. Entretanto a Dra Fátima, da Pneumologia, veio ter comigo e levou-me para um consultório. Com as lágrimas nos olhos deu-me um abraço e eu desabei ali... Entretanto chegou o Dr. Pedro, bem mais frio e distante, e começou a debitar informação acerca do linfoma. "Tem um linfoma de não-Hodgkin das células B grandes do mediastino, um linfoma agressivo e característico da sua faixa etária. É um cancro, mas não é dos mais graves. Vai fazer quimioterapia e é para curar, tá bem?" Não, não está bem. Como é que eu tenho um cancro? Isso só acontece aos outros!

Combinamos que esperaria pelos meus pais e voltava a reunir-me com ele. Entretanto liguei à Pi, à Joana e à Eliana. Evitei falar com o Pedro, que tinha um entrevista nesse dia, e quando me ligou menti-lhe também... A Eliana materializou-se ali e ficou a fazer-me companhia. Ia respondendo às minhas perguntas e enxugando as minhas lágrimas. Quando os meus pais chegaram foi ter com eles, deu-lhes a notícia e trouxe-os até mim. Nunca mais me vou esquecer dos olhares deles a entrar na urgência... Nunca me vou esquecer do apoio da Lia, de tudo o que fez por mim naquele hospital e fora dele.
O Dr. Pedro voltou ao consultório, explicou aos meus pais o que se passava e que tipo de tratamento teria de fazer. A Lia colocou questões, os meus pais também. O médico explicou que a doença estava muito bem estudada, que não há restrições orçamentais em Portugal para tratar doenças hematológicas e, por isso, o protocolo que seguem em Portugal é o melhor. Não havia por isso necessidade de ser tratada a nível particular e, muito menos de entrar em ensaios clínicos. Só precisava de decidir se queria ser tratada em Coimbra ou no Porto, no IPO ou no hospital. Não fazia sentido ficar em Coimbra por isso decidi pedir transferência para o IPO do Porto. Depois de esclarecermos todas as dúvidas deixamos o hospital.

O meu irmão, a Maria, a Pi e a Bé apareceram em Coimbra, o meu pai voltou a Felgueiras, a minha mãe ficou comigo. Passámos a tarde na esplanada, a aproveitar o solinho. No dia seguinte  chamaram-me para realizar um exame, a PET. É um exame bastante demorado e, quando finalmente saí, a meio da tarde e em jejum, tinha as minhas amigas Rute e Raquel, que vivem em Barcelona, à minha espera. Só para me darem um abraço e dizerem que vai tudo correr bem. Sou uma sortuda... Tenho tantos e tão bons amigos!

Depois disto tudo regressei a Coimbra para uma última consulta de Hematologia antes de ser transferida para o IPO do Porto. Duas semanas depois de ter sido diagnosticada com linfoma de não-Hodgkin fui internada para começar o primeiro ciclo de quimioterapia. O resto da história já conhecem!

Neste momento estou prestes a entrar no 5º ciclo. Já só faltam 2 para acabar a quimioterapia! Tenho reagido bem, pensei sempre que todo este processo seria bem pior. Tenho dias maus, obviamente... Hoje foi um deles, acordei com uma enxaqueca horrível que se manteve até ao fim da tarde. Valeu-me a sessão de Reiki que fui fazer. Placebo ou não, alivia-me as dores e revitaliza a mente!

Depois deste post já não guardo nada do passado para contar. Tudo o que vier serão relatos do meu dia-a-dia. O blog vai assim abrandar um pouquinho... É que entretanto surgiu a oportunidade de realizar um exame na faculdade na época extraordinária de Março. Se o fizer agora é menos um exame que terei em Julho e por isso vou dedicar-me, intensamente, a ele. É difícil planear o estudo (comigo tem mesmo de ser planeado) quando o objetivo é viver um dia de cada vez. Ainda hoje os planos me sairam furados. Mas se há coisa que o cancro me ensinou é que não devo entrar em pânico se as coisas não correm como desejamos. Se correm de outra forma é porque tinha de ser. O segredo é aceitarmos e adaptarmo-nos às novas situações. O sentimento de revolta não nos leva a lado nenhum e, na verdade, a pior das situações tem sempre um lado positivo. 
Só temos de querer vê-lo! :)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Step by Step

Há muito que digo que sinto falta de fazer exercício físico. Sinto falta das corridas e natação, essencialmente, mas também das aulas de ginásio mais intensas como o Zumba (gosto tanto de dançar!), o Jump, o cycling... Na verdade, o que sinto falta é da sensação de bem-estar que o exercício físico me proporciona. 

Ontem fui, de certa forma, "desafiada" pela minha amiga Ana e pela Pi para voltar a exercitar o corpo. Confrontaram-me ambas com uma foto da Sofia Ribeiro no ginásio, a fazer suar a careca, literalmente. Pensei cá com os meus botões que em vez de me andar a queixar da falta que o exercício me faz deveria, de um vez por todas, exercitar-me. 

A Dra Ilídia aconselhou-me a evitar os ginásios, diz que é um ambiente propício para contrair infeções, o que não convinha nada. Eu cá não acho que tenha assim tanto problema, depende do ginásio... Mas acatei a recomendação dela. No entanto, não é por isso que tenho de levar uma vida sedentária, certo? Está frio, muito frio, mas o sol é tão quentinho que não dá para lhe resistir! Por isso hoje saltei do sofá, vesti um fato de treino, escolhi um cachecol e enfiei um gorro, calcei as minhas "tilhas"de corrida e saí para a rua. Aqui em Felgueiras os espaços verdes não abundam e para ir até à alameda de Santa Quitéria (local muito agradável para praticar desporto) tinha de pegar no carro... Acabei por optar pela pista de atletismo da zona desportiva: tem um bom piso e fica perto de casa!


"Quanto mais cansado te sentires, menos ativo ficas, o teu corpo fica mais fraco, os movimentos tornam-se difíceis e... cansativos. É um círculo vicioso."

A fadiga é um dos principais efeitos secundários da quimioterapia. Eu, por exemplo, nunca senti tanta necessidade de dormir como sinto agora. Levantar-me da cama demora séculos e, grande parte das vezes, acordo cansada. Mas, aparentemente, a solução está em contrariar esta tendência e manter alguma atividade! Os efeitos não são só físicos, há uma componente psicológica fundamental em todo este processo... E o exercício físico é uma terapia de primeira linha!

A Sofia fez 3Km. Eu não lhe fiquei atrás e fiz 3,25Km em 37 minutos. Nada mau!

Vou dar luta ao sofá, à preguiça, à inércia corporal.

Declaro aberta a época das caminhadas! 



sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Capa negra de Saudade

Não acredito que haja alguém neste mundo que goste de despedidas. Não me refiro ao simples "até amanhã" ou "até um dia destes" que tantas vezes pronunciamos, por vezes com uma certa leviandade. Refiro-me à despedida de verdade, o dizer adeus a algo que sabemos que, a partir daquele momento, deixa de pertencer à nossa realidade para passar a pertencer, definitivamente, ao passado. 

Hoje foi um dia de despedida. E por isso não foi o dia mais feliz dos últimos tempos... Tive de voltar a Coimbra, retirar da minha (ex) casa o que restava dos meus pertences. 
Foi um misto de emoções. Sair da IC2 e entrar na Fernão de Magalhães sempre me deu uma sensação de bem-estar inexplicável, como muito poucos locais me suscitam. O percurso contrário causou-me uma angústia inesperada... Sinto que não me despedi da minha cidade como deveria. Como diz o Pedro, não fiz o "luto". Foi uma saída atabalhoada, à pressa, contra a minha vontade. E isso agonia-me. 
Sei que vou lá voltar (até porque não acabei o curso) mas não será como antes, não sei bem explicar. O que eu sei é que levo esta cidade entranhada em mim. Sei que se fechar os olhos consigo reconstituir os mais diversos cenários, tão característicos, recordar os pormenores e transportar-me até lá. Não vou esquecer as corridas junto ao meu Mondego, os passeios no bambuzal do Choupal, a Universidade, a Alta, o Botânico e a Sereia, a paz da igreja de Santa Cruz, os momentos em torno do cheesecake e do chá das galerias, desde sempre e com as mais variadas pessoas. 

No caminho para casa lembrei-me que não fiz o registo fotográfico dos breves momentos que passei hoje com alguns amigos. Ando com esta mania de tirar um fotografia com todos aqueles que me vão acompanhando e com quem me vou reencontrando. Mas não faz mal, sei que estaremos cá todos para viver mais bons momentos, ainda que, eventualmente, breves. Que importância pode ter uma fotografia quando vos levo a todos no coração? Aos de hoje e aos de sempre. 
Nesta bela cidade vivi os melhores e piores momentos da minha vida. Formei-me enquanto pessoa e profissional. Fiz alguns dos meus maiores amigos, amigos para a vida, estou certa. E por isso vou amar e ser eternamente grata a esta cidade, por tudo o que me trouxe e pelo que fez de mim.

Coimbra é, para sempre, nossa!!





quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

É carnaval, ninguém leva a mal!

Antes de mais, preciso de confirmar que há, de facto, luz ao fundo do túnel. Na consulta de rotina que tive na segunda, fui vista por uma substituta da Dra Ilídia, uma vez que esta se encontrava doente. Já não me lembro do nome da médica, mas era igualmente simpática e querida. Mostrou-me o 1º e último raio x que realizei... Há uma diferença abismal, creio que o linfoma de 12 cm deve ter sido reduzido a metade, só com 2 ciclos de quimioterapia. Ficamos radiantes, eu e a Sarita, que me acompanhou naquela consulta. Já suspeitava, mas entre suspeitar e visualizar vai uma grande diferença. É que no princípio, para além de sentir os efeitos daquela quimio pesada sentia também dores, provocadas pela compressão do linfoma no pulmão e vértebras, bem como umas palpitações que me impediam de dormir descansada... Agora já só sinto os efeitos da quimioterapia, que, entretanto, também se tornou mais leve. Continuo sem dormir uma noite seguida mas isso é por causa das variações bruscas de temperatura corporal que sinto devido às alterações hormonais que a quimio causa. Adiante...

Tive pena de não ter encontrado a Dra Ilídia. Sei que ela iria dar uma grande gargalhada quando me visse com uma peruca roxa! A ideia foi da Pi, comprou perucas para mim, para ela e para a Sarita e lá fomos nós naquela bonita figura para o IPO. Foi o meu carnaval, e foi um carnaval especial. Não me mascarei a rigor, não tive jantar com os amigos e não fui sair à noite. Mas arrancamos sorrisos naquelas salas e corredores. Ainda que fugazes, foi uma boa recompensa! 



Depois da consulta com a médica fui à tão esperada consulta de nutrição. A nutricionista, tão jovem quanto eu, procurou saber quais as minhas dúvidas em relação à alimentação. Quando lhe disse que tinha ganho algum peso (penso que devido ao corticóide que faço) focou-se completamente nesse aspeto. Foi um consulta de nutrição, não de nutrição oncológica. Não acrescentou nada de novo aquilo que eu já sabia e já tinha lido. Aliás, no que diz respeito a dicas para contrariar náuseas, não disse mesmo nada de jeito. Proibiu-me as framboesas (bolas!!) e as saladas, mesmo que devidamente "amukinadas"... Um dia destes faço um post sobre dicas de alimentação. Há imensas coisas que, por serem tão naturais e banais no dia a dia, nem nos passa pela cabeça que possam constituir um perigo!

Depois desta consulta e como só tinha hospital de dia às 15.30, fomos todas almoçar. A Bé só saiu às 14h do S. João e, com uma hora de almoço apertada, não pudemos ir muito longe. Ficamos por ali mesmo e encontramos uma casa de hamburguers artesanais (ai se a nutricionista sabia...). Não eram nada de especial. Especial foi a companhia. Somos amigas há muitos anos e momentos assim, só das quatro, são cada vez mais escassos e, por isso, são momentos únicos!



No final, a Pi e a Bé foram à vida delas e eu e a Sarita voltamos ao IPO, ao hospital de dia. Nunca esperei tanto tempo até ser chamada, foram quase 2 horas! No entanto, nunca o tempo passou tão rápido como desta vez... Não há melhor rede social que uma sala de espera! Pela primeira vez meti-me à conversa com os meus companheiros de luta. 

Conheci a Paula, uma senhora da idade da minha mãe, um pouco mais nova talvez. A Paula contou-me o percurso todo dela... E que percurso! Já conta com 31 sessões de quimioterapia, está toda metastisada. Disse-me que não tem um cancro, tem vários. Tantos que nem sabe quantos são. Esteve tão mal que lhe ofereceram um quarto privativo nos cuidados paliativos, para lhe poderem proporcionar uma morte mais "digna". Milagrosamente começou a melhorar e neste momento faz quimio atrás de quimio para se manter viva. O que a faz lutar é o sorriso da filha, do marido e dos pais logo pela manhã. Não tem qualquer outro objetivo de vida se não esse. Algo tão simples e tão essencial... Senti-me pequena, tão pequenina ao lado dela! 

Ao mesmo tempo que a Paula descrevia a sua experiência conheci um senhor, também ele da idade do meu pai, mais coisa menos coisa. À filha dele, que estava na sala de tratamento a fazer a 1ª quimio, foi diagnosticado o mesmo tipo de linfoma que me foi diagnosticado a mim. A partir do momento que tomou conhecimento deste facto o senhor nunca mais me "largou". Fez pergunta atrás de pergunta, como se eu fosse um anjo caído do céu pronta a responder a todas as suas dúvidas. Estava visivelmente perturbado e preocupado com a sua querida filha e com a forma como ela está a encarar a situação. Saquei do meu caderninho azul da Sandoz que o Pedro me deu e rasguei uma folha onde escrevi "Linfoma feito ao bife". Entreguei-lha para que ele a entregasse à filha. Gostava de a ajudar, mostrar-lhe que o futuro parece negro mas podemos aclará-lo se assim o quisermos. Vi  espelhado na cara dele o sofrimento e lembrei-me do meu pai. Tal como ele, aquele senhor diante de mim repetia vezes sem conta que faria o necessário para tornar a caminhada que a sua filha está prestes a enfrentar menos penosa. Tal como o meu pai, ele só lhe queria tirar as pedras do caminho. O pai da Paula também lá estava na sala de espera. Afinal todos os pais e mães querem o mesmo, amparar as quedas dos filhos, ajudá-los a levantar e a enfrentar o caminho de novo. 

Quase fizemos uma festa quando às 17.15h chamaram pelo utente das 15.30, Sala 1, cama 106! Lá nos instalámos, eu melhor que a Sarita, claramente! Catéter na mão, injeção de anticorpo na barriga e estava tudo pronto para a tão esperada soneca!


Até adormeci com a cabeleira posta! A pobre da Sarita é que ficou ali a olhar para mim e a atender os meus telefonemas, como se de uma secretária se tratasse! "A Guida está a dormir", "O tratamento começou tarde por isso não vamos daqui muito cedo!" ouvia eu, meia a dormir, sem abrir os olhos... Vá não foi assim tão mau, às 9 da noite já estávamos em Felgueiras! 

Saí de lá com uma sensação de cansaço extremo, como é habitual. Nunca corri uma maratona, mas a sensação não deve ser muito diferente! No dia seguinte a sensação mantém-se. Só mais tarde vem os enjoos e outras coisas mais. Não são fortes, não me impedem de comer, mas tenho de me obrigar um pouco. É um mau estar geral, física e psicologicamente. 
Mas passa, tudo passa!

Agora é aproveitar, da melhor forma possível, os 15 dias de descanso que aí vem! :)