Nem sei por onde começar... A euforia tomou conta de mim, de
tal maneira que me impede de concentrar no estudo. Por isso decidi vir para a
esplanada da praia, a praia onde cresci e de onde guardo as melhores
recordações da minha infância. Sinto-me uma privilegiada, por poder voltar aos
lugares onde sempre fui feliz, tão feliz! Sinto-me ainda mais privilegiada por
estar viva, por sentir uma vontade imensa de aproveitar cada momento desta vida
efémera e sinto essa vontade a fervilhar dentro de mim!
Hoje, dia 6 de Julho de 2016, acabou o meu tratamento.
Acabou, acabou, acabou!! Não me canso de repetir isso ao telefone, apetece-me
gritar para toda a praia ouvir, que hoje, dia 6 de Julho é dia de alegria, é
dia de comemorar o fim da pior fase da minha vida.
Foram 240 dias, dias de angústia, sofrimento físico e
emocional, dias difíceis, alguns demasiados difíceis para uma jovem de quase 29
anos com muitos projetos, muitos sonhos e muita vontade de os concretizar...
Estou tão feliz que não caibo em mim! Já chorei, muito, já ri, muito também.
Ainda nem acredito que isto acabou, que vou finalmente poder continuar aquilo
que ficou, como costumo dizer, suspenso!
Foram 6 ciclos de quimioterapia, seguidos de 22 sessões de
radioterapia. Inicialmente estavam previstas 20, mas como o meu corpo começou a
responder tão bem ao tratamento, decidiram fazer mais duas sessões, limitadas
apenas à área residual que se observava nitidamente nas imagens, para
“potenciar o tratamento”.
O facto de o meu corpo responder tao bem levou os
médicos a crer que, ao contrário do que foi revelado na última biopsia que fiz,
ainda havia alguma malignidade. Ou seja, se fosse material benigno as
alterações não teriam sido tão acentuadas. O material recolhido na amostra não
terá sido representativo da massa total e por isso não revelou malignidade. Mas
isso agora também não interessa para nada, porque afinal o linfoma está mais
que morto, assim o espero!
E agora, o que sucede? Consultas de seguimento, análises...
Mas isso será só em Outubro. Sim, só em Outubro volto a por os pés no IPO, e só
em Janeiro poderei fazer o exame que vai ditar o juízo final. Para já está a
batalha ganha, mas a derradeira vitória ainda está por vir. Com a força que
tenho em mim, sei que chegará.
Nesse dia vou querer festejar com todos, todos aqueles que
desde o primeiro minuto estiveram ao meu lado. Sinto-me grata, tão grata à vida
por me presentear com tantos e bons amigos, por me mostrar o melhor lado deles,
por me proporcionar amor, amizade, carinho, solidadriedade, palavras e abraços
de conforto. Sinto-me ainda mais grata por ter uma família incrível, que me deu
a mão sem nunca a largar, que chorou comigo quando eu precisei de chorar, que
esteve sempre à cabeceira da minha cama tentando amenizar o meu sofrimento, as
dores que tantas vezes me assolaram o peito. A todos vós, mais ou menos
próximos no parentesco, um obrigada é pouco, muito pouco.
Pedro... Tu, que com o teu jeito tão particular, me
abraçavas e me transmitias a paz necessária para enfrentar cada momento. Que
num sorriso me devolvias a esperança, e num olhar a certeza de que tudo ia
ficar bem. E ficou, agora vamos aproveitar a bonança, a nossa tempestade está a
passar!
Por fim, não consigo deixar de agradecer a todos os
profissionais de saúde com quem contactei. Provavelmente a maior parte não vai
ler o meu blog pois nem todos tem conhecimento dele. Mas seria injusto não
“dedicar” esta pequena grande vitória a cada um deles. O que seriamos nós,
doentes e pacientes, sem o profissionalismo, rigor e carinho com que nos tratam.
Agora que já exteriorizei a minha alegria e entusiasmo, já
me sinto mais serena e talvez já consiga concentrar-me na Bioquímica Clínica
que me anda a dar cabo dos neurónios!
Mais logo vou celebrar, o término dos tratamentos, o aniversário
da Lili (pensavas que escapavas?), a existência do Luisinho que teima em
permanecer na barriga da Val e, quem sabe, a passagem de Portugal à final!
Mas antes, vou descalçar-me, arregaçar as calças e vou
sentir o mar.
Hoje é o primeiro dia do resto desta aventura a que chamamos
VIDA!








