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quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Cancro com Humor

Este post deveria chamar-se "Não há coincidências - Parte II". Mas como já há por aí muitas "Partes", vou-me cingir aquilo a que realmente este post diz respeito: Cancro com Humor.

O meu amigo Kiko, que é também ele um ACC (Amigo Com Cancro), sugeriu-me, há umas semanas, que visitasse um blog, Cancro com Humor. Gostei imenso do blog. Com um toque refinado de "safadeza", como diz a autora, consegue desmistificar por completo este tema (ainda) tabu. Não sendo uma seguidora assídua de blogs (ironia das ironias) comecei a seguir o blog da Marine.

A Marine teve cancro há 10 anos atrás. Curiosamente, um linfoma no mediastino. O cancro voltou a entrar na vida dela, desta vez fazendo-a passar por ele no papel de cuidadora. Uma história do caraças. Mas que ela recorda com... Humor! Uma combinção improvável, mas irresistível!

Há uns dias atrás comecei a seguir a página de facebook da Marine e deparei-me com os seus primeiros vídeos. Depois de umas boas gargalhadas resolvi mandar-lhe uma mensagem. Fiquei fã.
Entretanto a "tia" Irene ligou-me a falar da palestra que a Marine ia dar hoje na Casa Ronald Mcdonald. Disse logo que sim. Convidei a minha prima Verinha, sempre disponível, e a minha mãe que, com muita pena minha, não podia ir. Lá foram as 3 da vida airada para o Porto, mais precisamente para o Hospital de São João, cujo perímetro inclui a Casa. Esta instituição/organização é incrível. Extremamente bem decorada, com tudo o que é suposto haver numa casa, acolhe famílias carenciadas, proporcionando aos familiares dos pequenos doentes todas as comodidades que uma casa pressupõe e permitindo que acompanhem de perto os tratamentos, sejam eles no IPO ou no S. João. 
Agora sei para onde vai o troco do meu menu Double Cheeseburger com extra queijo... Sim, vai para aquela caixinha onde nunca vi ninguém colocar moedas!

Nunca me passou pela cabeça conhecer a Marine pessoalmente mas a oportunidade surgiu e, como tinha gostado tanto dos vídeos, achei que não me ia arrepender de assistir à sua palestra. Não só não me arrependi como superou todas as minhas expectativas. Confesso que hoje não tinha grande vontade de ir... O "coiso", ou Barrabás, resolveu fazer "cucu"... Mas já tinha tudo combinado e fiz o esforço. Ainda bem que o fiz. Hoje aprendi várias lições, entre elas a "Vale sempre a pena sair de casa, mesmo que tenhamos um cancro a fazer-nos a vida negra", não fosse o cancro um "excelente educador".

A Marine é uma pessoa fantástica. Bem disposta, com uma alegria contagiante, é daquelas pessoas com quem criamos empatia ainda que não tenha havido contacto verbal direto. Incitou o público a participar na palestra e respondi a muitas das suas questões em surdina. Não gosto, nunca gostei, de falar para muita gente. Sei que coraria assim que me atrevesse a fazê-lo e escolhi ouvir as respostas dos outros. Felizmente a plateia era uma plateia ativa. Relatou a sua experiência com muita piada: pôs-me a rir e a chorar. Contive-me várias vezes para as lágrimas não me caírem. Como ela diz, "É da quimio", "os medicamentos deixam-me alterada" e com "as emoções à flor da pele". São boas desculpas! Mas também sorri e ri muito por detrás da minha melhor amiga, a máscara verde.
No final houve tempo para fotografias ao estilo da Ellen DeGeneres e selfies com a protagonista Marine. Ganhei o dia com a breve conversa que tive com ela e ainda ganhei um abraço. Dos verdadeiros.




Obrigada Marine por esta tarde excelente que nos proporcionaste. 
Continua com o teu trabalho maravilhoso, com o teu sorriso, energia e presença que tantos Carecas Power, como eu, inspira.
Bem-haja!



Vídeos da Marine:



sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Little Princess Trust

Sexta-feira, 18 de Dezembro

No mesmo dia em que fui internada no IPO do Porto para iniciar o primeiro ciclo de quimioterapia, fui também à cabeleireira dar as primeiras tesouradas. Tinham-me ligado nessa manhã do IPO, ofereciam-me um fim de semana num hotel (quase) de luxo, em regime de pensão completa. Pensei duas vezes, mas resolvi aceitar porque nesta vida ninguém dá nada a ninguém e presentes destes não aparecem todos os dias!

Os planos para o fim-de-semana eram mais que muitos e incluíam reencontros com amigos vindos de Lisboa, Coimbra e Barcelona, jantar com os amigos de sempre cá do norte e passeios de bike à beira-mar... Com a mesma facilidade com que combinei mil e uma coisas, cancelei-as. Os amigos vieram na mesma, tiveram de revezar-se para me visitar no hotel, porque os porteiros eram chatos, muito chatos. Mas mantive a marcação na cabeleireira.

A Sarita e a Pi fizeram questão de me acompanhar. Sorriram para mim o tempo todo no espelho e iam fazendo sinais de aprovação enquanto a Leta tratava do assunto. Gostaram tanto do resultado que, no final, confessaram ter vontade de cortar também. 
A Sarita já tem um corte de cabelo curtinho, não dá para cortar mais. Mas a Pi tinha um cabelo bem comprido. Fizemos então uma espécie de pacto. Quando eu rapasse, a Pi cortava bem pequenino. Estava decidido.

No dia em que começou a cair liguei-lhe, em jeito de "Prepara-te que vais ter de cortar já". Como decidi rapar em casa, combinamos que esta semana eu a acompanharia à cabeleireira para cumprir o pacto que firmamos. Pela terceira vez... Assim foi.

Fui surpreendida por um update no pacto. A Pi não ia só cortar o cabelo, resolveu cortar e doa-lo. Infelizmente em Portugal, mais especificamente no IPO, não aceitam doações. Parece que o maior problema se prende com a falta de recursos, que impede que cabeleiras manfaturadas com cabelo natural levantem a auto-estima de pessoas cujas carecas resultam de quimioterapia... Não havendo possibilidade de doar em Portugal, parte-se para o estrangeiro.

No Reino Unido há uma instituição de caridade que assegura que crianças, especialmente crianças carenciadas, possam receber uma cabeleira. Chama-se Little Princess Trust e aceita doações de cabelo de pessoas residentes em outros países para além do Reino Unido.

O processo de doação é mesmo muito simples:
1. Lavar e secar o cabelo antes de o cortar.
2. Atar o cabelo com um elástico à altura que se pretende cortar. 
3. Fazer uma trança e atar a extremidade.
4. Cortar.
5. Colocar a trança dentro de um saco plástico (tipo congelação)
6. Colocar o saco dentro de um envelope almofadado e escrever a morada da instituição.
7. Enviar via CTT.

Há alguns requisitos e limitações:
- O cabelo deve estar bem tratado (sem pontas espigadas)
- Deve ter no mínimo 17 cm (O que são 17 cm em cabelos que passam o meio das costas?!)
- Aceitam cabelo pintado desde que seja numa cor natural
- Não aceitam cabelos Afro
- Não aceitam rastas



Tive o prazer de executar o passo número 4 do processo de doação, ao estilo do vídeo da Sofia Ribeiro só que com menos pompa e circunstância. Mas tinha o coração a transbordar de orgulho e isso basta-me.

Como podem reparar, não é necessário rapar o cabelo para se conseguir doar 17 cm. A Pi ficou tão gira com o seu novo corte! Digam lá se não tenho razão!



Desafio todas as mulheres que lerem este post a ponderarem a doação de cabelo a esta instituição. Para uma cabeleira ficar completa são necessárias 5 doações, ou seja, cabelo de 5 pessoas diferentes. Se têm o cabelo comprido e o querem cortar, não cortem só por cortar, cortem por uma causa. Até recebem um certificado no final!

Saímos do salão com a sensação de dever cumprido. Na segunda feira o cabelo da Sílvia, que parecia uma pequena cobra dentro do saco de plástico, segue para o Reino Unido. Nós ficamos por cá, porque temos mais que fazer, se não púnhamos o telemóvel em modo avião e íamos passear com ele!



Para mais informações acerca da instituição, sigam o link acima e vejam este vídeo, onde encontram mais informações acerca do procedimento de doação.





Em nome das carecas brilhantes de Portugal e desse mundo fora, obrigada Pi por este gesto tão nobre. És grande!!


quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Não há coincidências

Se há coisa que me irrita nos canais generalistas portugueses são os programas da manhã. Uma vez por outra lá surge qualquer coisa interessante, mas de uma maneira geral acho que são programas pobres em conteúdo. Ainda assim, tenho o hábito de ligar a televisão enquanto tomo o pequeno-almoço, posso ter a sorte de apanhar as notícias e sempre me faz mais companhia que o Charlie, que só sabe pedir torradas!

Segunda-feira da semana passada, dia 28 de Dezembro, não foi excepção: liguei a televisão e fui preparar o meu habitual cappuccino. O tema chamou-me a atenção e prendeu-me. Conheci a Sofia, uma entusiasta da pastelaria, que estava ali não só pelos seus dotes de culinária mas também por uma particularidade, tinha cancro. Com apenas 24 anos, a Sofia estava no programa "A Praça" a distribuir uns cupcakes natalícios com um aspeto delicioso e a falar abertamente sobre a sua condição: finalmente estava curada, livre de tratamentos e de preocupações!
A Sofia é autora de um blog, daqueles que deixam água na boca, o Chá das Cinco. Foi nele que mergulhei depois daquela surpresa matinal e foi através dele que recuperei a vontade de me dedicar de novo aquilo que tanto gosto... Cozinhar!

Fiquei de tal modo empolgada com a ideia que acedi ao link disponibilizado no blog dela para assistir de novo à reportagem (34:20). Queria mostrar à minha mãe aquela pessoa inspiradora com quem tanto me tinha identificado. Estava ciente de não ter acompanhado a reportagem do início mas não tinha noção da importância do que havia perdido... Nada mais nada menos do que a parte em que a Sofia fala da doença e do blog dedicado a ela. Blog? Qual blog? Sim, há um outro blog para além do Chá das Cinco. Chama-se Rebelde com Causa e mostra-nos o dia a dia de uma jovem com cancro. Coincidência das coincidências, a Sofia teve exatamente o mesmo tipo de cancro que eu tenho. Assim, sem tirar nem pôr.

Escusado será dizer que nessa noite não me deitei sem ler todos os posts. Tudo aquilo que eu tinha evitado saber e pesquisar porque me convenci que não precisava de nada nem de ninguém para me ajudar a perceber e superar certos obstáculos, estava ali, mesmo à minha frente e não podia ser ignorado. E ainda bem, porque me ajudou imenso. Falar com a Sofia, trocar impressões com ela, deu-me animo e uma força renovada para abraçar novos desafios. Este blog é isso mesmo, um desafio a que me propus inspirado na história dela.

Obrigada Sofia