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domingo, 24 de julho de 2016

O último antes dos 30

Sem pensar muito no calor que se faria sentir hoje, decidi fazer uma caminhada da parte da manhã. Fui até ao Parque verde, local que não prescindo de ir sempre que estou em Coimbra. Ainda não ia a meio e já me arrependia, suponho que às 10 da manhã a temperatura já roçava os 30 graus! Mas nem por isso desisti, é urgente recuperar a forma física, da qual me tenho desleixado nos últimos tempos... 

Cheguei a casa uma hora e tal depois, desidratada e com uma bela dor de cabeça e de pernas! Recuperada do esforço, saio de casa à procura de um sítio calmo para retomar o estudo. Biblioteca, fechada. Faculdade de Economia, fechada. Tentei o TAGV na esperança de encontrar um local, pelo menos, fresco! Não fui feliz na minha escolha, estar dentro do café ou na esplanada da praça teria sido rigorosamente o mesmo. 

Que sorte a minha, um fim de semana de calor infernal, Coimbra deserta (porque está tudo na praia) e a Gui praticamente sozinha em casa e a estudar a esta altura do campeonato!

Se pudesse ao menos recuar uma semana no tempo...  Estava prestes a completar 29 anos!

Não tenho por hábito festejar o meu aniversário com muita gente, gosto muito de convívios e festas, quando são dos outros e por isso quase sempre torço o nariz à ideia de grandes jantares.
Este ano, devido a tudo o que aconteceu, decidi convidar uns amigos para beber um copo e cantar os parabéns à meia noite, nada de especial. 
No entanto, acharam que a ocasião pedia mais, meteram mãos à obra e fizeram, sem o meu conhecimento, o que eu não queria fazer: um grande jantar com a minha família e amigos mais próximos. 

Sem saber de nada ainda lhes dei luta porque insistia em sair da praia, onde estava a passar a tarde com alguns amigos, para ir para Felgueiras onde supostamente jantaria, somente, com os meus pais e avós. 

Os estratagemas para me atrasarem foram mais que muitos e eu não queria, de todo, atrasar-me porque, para além de ser perita nisso, não queria dar razão ao meu pai, que faz sempre questão que eu esteja em casa a horas!

Acho que pela primeira vez na vida, não levei um "puxão de orelhas" pelo meu atraso! 

À minha espera tinha uma pequena multidão, a lançar um "SURPRESA" assim que surgi no patamar. E que surpresa! 




Chorei, tremi, voltei a chorar e dei início à ronda de beijinhos e abraços aos presentes. Seguiu-se uma bela noite de convívio, onde só tive pena de não me poder multiplicar para dar a atenção devida a cada um.

Agradeço aos que vieram de longe, muito longe, para estarem comigo. 
Agradeço aos de perto por terem sido incansáveis nos preparativos e na criação de um cenário incrível. Agradeço, particularmente, à Pi por todo o trabalho que teve ao longo de semanas!
À Tess pelo registo fotográfico que vai virar um excelente álbum.
À minha avó que, atraiçoada tantas vezes pela memória, conseguiu não estragar a surpresa.
Aos meus pais, por terem tornado esta celebração memorável!

Aos poucos (mas bons) que faltaram, pelas mais diversas razões, não se preocupem, estiveram bem pertinho, no meu pensamento.

Para o ano há mais!!



E com este post me despeço do blog por uns tempos. 
Volto em Outubro, darei novidades quando voltar ao IPO. 
Está documentado o que havia para documentar. O pior já passou e desejo, com todas as minhas forças, que os dias difíceis e de luta tenham terminado. 
A resiliência, essa, pode permanecer, é uma boa ferramenta para a vida.


Um bem-haja a todos os que me acompanharam. 
Levo-vos no coração!


domingo, 8 de maio de 2016

Digressão nacional

A prova de que, realmente, ando a falhar com este blog é o facto de estar em frente ao computador há uns bons minutos à procura das palavras certas para começar este post. Por não me querer tornar repetitiva as palavras custam a sair. Costumam dizer que o difícil é começar. E com isto já escrevi umas linhas.

Há duas razões essenciais pelas quais tenho estado ausente. A primeira é que não tem havido grande evolução no meu tratamento. 
No início desta semana fui ao IPO fazer uma biópsia. Aquela que era a solução menos provável concretizou-se. Antes de fazerem opções erradas, os médicos decidiram que seria mais sensato tentar chegar ao cerne da questão, à massa de células que permaneceu após a quimioterapia, retirar uma amostra e estuda-la. Uma vez que eu não apresentava sinais clínicos da doença, o objetivo desta biopsia alterou-se: o resultado dela vai servir para ajustar a dose da radioterapia, sendo que a hipótese de voltar à quimioterapia é, praticamente, remota (ainda que não tenha saído da mesa por completo). 

Segundo a Dra Ilídia, a quimio já fez o que tinha a fazer. O que restou há-de ser eliminado pela radioterapia.  Posto isto, e bastante contrariada, lá fui fazer o exame. Antes de assinar o papelinho, coisa que só acontece quando os procedimentos apresentam alguns riscos, pedi, encarecidamente, por uma anestesia para além da anestesia local, qualquer coisa que me pusesse a dormir. Sob pena de ter de fazer a biopsia noutro dia lá aceitei um comprimido para me ajudar a relaxar e fiz a biopsia bem acordada! Bastou-me olhar para o tabuleiro dos instrumentos do médico para ficar uma pilha, aquela agulha tem um tamanho assustador. E pensar que vai ser espetada no peito é aterrador! 
Ao fim de 20 minutos estava já na maca, a receber paracetamol diretamente na veia para não ter dores quando a anestesia local passasse e a chorar como uma Madalena arrependida. Duas horas de repouso, um raio-x ao tórax e fujo, a 7 pés, daqueles carniceiros! 
Não foi tão mau como da outra vez, é certo, mas espero, fervorosamente, que tenha sido a última!

Fui embora com a indicação de repousar, nada de esforços até ao dia seguinte.  Depois é fazer a vida normal. E foi o que eu fiz. A partir daí resolvi praticar o “vá para fora cá dentro” com alguma intensidade e esta é a segunda e verdadeira razão pela qual não pus cá os pés. 

Do Porto segui para Vila do Conde e de lá para Lisboa. No regresso ao Norte decidi fazer uma visita relâmpago a Coimbra... É mais forte do que eu! 
A minha casa, as minhas colegas de casa (mais amigas que colegas), receberam-me de braços abertos como sempre. A mim e à minha tropa! E lá fomos cumprir a tradição, com chuva ou sem chuva, estudante que é estudante não falha uma queima das fitas! 
A esta altura devem achar que sou doida, mas a verdade é que me sinto ótima, com as energias lá no alto. E, não havendo nenhuma restrição médica, não havia razão para não ir, se era essa a minha vontade. Revi muitos amigos, choveram abraços e algumas lágrimas de alegria de ambas as partes. Em menos de 24 horas estava a bordo de mais um autocarro, desta vez em direção ao Porto. De coração apertado, porque soube a pouco, mas de alma cheia, porque voltar a Coimbra é sempre um gosto. Reconheço que já chega de queimas... Mas voltar também foi bom por isso, para me dar essa percepção.

Chego ao Porto debaixo de uma chuva que não dava tréguas e sigo com a Pi em direção a Vila Real. Fomos festejar o “último dos vintes” da minha amiga Raquel, e rever os nossos amigos transmontanos, que conhecemos, claro está, em Coimbra! Na volta, o túnel do Marão abriu alas para a nossa passagem, cruzamo-nos com a comitiva do governo e dissemos adeus ao Sócrates... Vá,  agora estou a inventar!

A azáfama de viagens terminou, ufa!


Volto à base mas tenho o pensamento noutra cidade e no passado, num tempo que foi e não volta. O meu facebook foi invadido por estudantes que se recusam a adiar cortejos académicos devido às condições meteorológicas. Era minha vontade ir ao sótão, sacudir o pó ao traje e sair para as ruas de Coimbra, de cartola roxa e bengala em punho. Afinal sempre foi o curso que quis fazer e era suposto terminá-lo agora. Por alguma razão, que só alguma entidade divina será conhecedora, não foi assim que aconteceu. 
E hoje, numa vila junto ao mar, bem longe de Coimbra, sou invadida por uma nostalgia, uma mágoa, uma revolta e muitas incertezas. Mas deixo que a maresia e o mar revolto me levem esses sentimentos para bem longe.  Aceito o que a vida me deu e convenço-me que o futuro me trará a recompensa. 
Já diz a música, "hoje é o primeiro dia do resto da tua vida". Está na hora de assentar arraiais, planear o estudo e trabalhar no que está ao ao meu alcance para continuar o meu percurso. Hoje, junto ao mar, decidi que não vou só vencer o cancro, mas vou também vencer na vida. 

Lamechices à parte, digo-vos, “um dia ainda me vou rir disto”!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Reta final!! :D

Mais uma semana, sete dias carregados de acontecimentos marcantes. Uns bons, outros maus, uns esperados,outros nem por isso... De todos eles, destaco os positivos, nomeadamente a visita dos meus amigos, que vieram de Lisboa, onde vivem e trabalham, apesar de serem uns transmontanos e minhotos de gema! Tanto a Ana, como o Kiko, como a Bia, são meus amigos há muitos anos e são aquele tipo de amigos que estão sempre longe e ao mesmo tempo sempre perto. Toda a gente tem um ou outro amigo assim. Eu gosto de pensar que sou especial no toca a matéria de amigos desta categoria, porque não tenho um ou dois, tenho uma mão cheia deles!

Primeiro a Bia, pequenina em altura, grande de coração, que veio alegrar a minha tarde de estudo com uns docinhos e um chá, algumas horas de conversa e um abracinho forte, cheio de boas energias!



Depois a minha Ana Maria (aka Sardinha) que aproveitou a escapadela do seu Manel  para vir passar um fim-de-semana a Felgueiras. O fim-de-semana afigurou-se curto, mas foi suficiente para dar uns belos passeios, aproveitar o sol e ainda nos proporcionou umas aventuras que envolvem cães da raça Yorkshire perdidos - ou abandonados (mas nem quero pensar nisso) - em plena auto-estrada!



A Ana é aquela amiga, meia maluca, que se conhece na universidade e que marca a vida de quem se cruza com ela, pela sua genuinidade, espontaneidade e, claro, por ser mais que uma amiga, uma irmã!


Esta semana tive de ir três vezes ao IPO. Na segunda tinha análises e consulta, terça tinha de ir fazer a PET e na quarta a quimio. 
Como devem imaginar a minha vontade de lá ir três vezes era mínima e, apesar de ter dormido em casa da Pi no domingo (e por isso já estava no Porto), consegui chegar atrasada às análises. Sair da cama de manhã é uma odisseia!! O que vale é que nas recepções dos serviços por onde passo ninguém se chateia comigo por não chegar a horas, assim até espero menos pela consulta :)

A Pi, sempre presente, acompanhou-me desta vez na consulta e teve o prazer de conhecer a querida Dra Ilídia. De olhar ternurento, gaba-me sempre o turbante que faço com os meus lenços e deu uma gargalhada contagiante, tal como esperava, quando a Pi lhe mostrou a nossa fotografia com as perucas de carnaval!
As análises estavam mais ou menos boas, mas nada de preocupante. Não me impediu de fazer o tratamento e aumentou-me as injeções que estimulam o corpo a restabelecer os níveis sanguíneos no período de descanso entre quimios. Marcou-me, como sempre, um raio x. Ou melhor, tentou marcar! O sistema não funcionava nem por nada e acabei por não conseguir fazer o raio x nesse dia. 
À hora de almoço estávamos despachadas e fomos almoçar as duas, como já não fazíamos há muito tempo, mas desta vez com vista privilegiada para o Douro!



 No dia seguinte, terça-feira, tinha a PET marcada para as 13:30. Ainda tentei fazer o raio x que a Dra Ilídia tinha pedido mas continuava sem estar marcado. Telefone para aqui, telefone para ali, nada feito. E com isto já estava atrasada para a PET. 

A PET é um exame que demora bastante tempo pela preparação que requer. É-nos injetada uma solução radioativa e temos de esperar que esta percorra todo o corpo. Depois vamos à máquina de TAC e é rápido mas até lá são umas três horas que ficamos à seca. Ainda por cima temos de ficar quietinhos e sempre na mesma posição para que haja uma distribuição uniforme da solução. Nada de ler, levar o telemóvel ou tablet. Ou dormimos ou ficamos a pensar na morte da bezerra! 
A enfermeira vem com uma barra de metal que me faz lembrar um supositório em tamanho gigante! Desmonta-o e sai de lá uma agulha com a substância radioativa. "Sabe que não pode estar com grávidas e crianças no dia de hoje não sabe? E quando for à casa de banho tem de puxar o autoclismo duas vezes?" Sim, já sei isso tudo! Depois de uma hora à espera para ser chamada, fiz o exame e saí às 18:15h. Sem comer. Valeu-me a minha mãe que pensa em tudo. Às 7 da manhã de terça-feira acordou-me e levou-me o pequeno almoço à cama, assim perfazia as 6 horas de jejum e sempre ia com o estômago mais confortável! 

Quando saí tinha o Kiko à minha espera. E agora preciso de contar o porquê de ser amiga do Kiko. Não somos da mesma terra, não tiramos o mesmo curso e nem sequer estudamos no mesmo sítio. Ele é de Vila Real e vive em Lisboa. Mas é, desde sempre, o melhor amigo de uma grande amiga minha e, por caminhos tortuosos, tornam-nos amigos também. Conhecemos-nos no dia em que o namorado dessa nossa amiga morreu, de cancro. O cancro uniu-nos nesse dia e insiste em não nos largar. O Kiko está a recuperar neste momento de um cancro, eu estou a tratar e hei-de recuperar dele também. O Frederico (já estou farta de escrever Kiko) é enfermeiro no IPO de Lisboa, trabalha com cancro todos os dias e disse-me, ainda ontem, que não se vê a trabalhar noutro lado, porque precisa do doente oncológico, são eles que o fazem sentir realizado e feliz no trabalho, apesar de ganhar uma ninharia ridícula, como tantos enfermeiros ganham por este país fora. Assim, e como podem constatar, o Kiko é um ser especial, de uma candura e sensibilidade que poucos homens têm.





Sempre que ia a Lisboa nunca conseguia ver o Kiko, pois ele além de enfermeiro dedicado é professor e está a tirar a especialidade. Tem por isso uma agenda ocupadíssima! Não nos víamos há quase 2 anos. Não nos reencontramos nas melhores circunstâncias, mas assim que o encontrei parecia que tínhamos estado juntos no dia anterior numa qualquer esplanada a dar duas de treta. Continua tudo igual o que me leva a crer que esta amizade será para sempre.

Fomos jantar, levou-me à quimio no dia seguinte, foi meu motorista e indiquei-lhe o caminho para o estabelecimento de Felgueiras onde se comem umas panquecas com mel de fazer crescer água na boca. Tratamo-nos bem, portanto!
Hoje foi embora, e sinto a falta dele. Fez-me lembrar de quando era mais nova e a Valéria, minha amiga e futura mamã, passava uma semana e tal em minha casa no Verão. Eram 24 sobre 24 horas juntas e sempre que se ia embora sentia muito a falta da minha companheira! Com o Kiko ficou a pairar o mesmo sentimento e por isso fica a promessa de que quando for a Lisboa ter com o Pedro vamos todos comer uma grande sushizada... Sim kiko, não penses que me esqueci! ;)

Para terminar e acabar bem o dia, recebi um raminho de umas flores vermelhas cujo nome não consigo reproduzir... A tia Irene, mesmo que queira comentar aqui no blog não vai conseguir fazê-lo (há determinadas pessoas que não conseguem mesmo) e por isso vou-me manter na ignorância! 


(Pedro, estou pronta para casar!! :p )

Mas não podia deixar de partilhar aqui estes miminhos que, de vez em quando recebo, e me deixam muito feliz.

Faz-me sentir que gostam de mim, que se preocupam comigo e que me têm no pensamento. Sei que estou no pensamento de muitas, muitas pessoas, todos os dias. As mensagens continuam a chegar e sinto-me cheia de energia (apesar de ter feito quimio ontem), transmitida por todos os me acompanham, de longe ou de perto, por saber que já só falta um ciclo, pelo fim-de-semana que se aproxima (e que com ele traz o meu amor) e por saber que esta fase, apesar de má, vai ser passageira. Só é preciso um bocadinho de paciência e "botar" um sorriso na cara, como diz a música!

E é com o meu sorriso que vos deixo. Um sorriso e uma carequinha orgulhosa!
Beijinhosss






quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Diagnóstico - Parte III (e última!)

Falta-me aqui contar como fiquei a saber que tinha um cancro. Podia ter resumido a história do diagnóstico num único post e assim contava-a de uma só vez... Mas vou-me lembrando deste e daquele pormenor e acabo por divagar. Foi quase há um mês que descrevi a fase do internamento nos HUC e por isso já devem ter perdido o fio à meada... 

Basicamente, depois de passar 10 dias no hospital a curar a pneumonia, tive alta no dia 20 de Novembro e vim para casa esperar pelo resultado das biópsias. O que se sabia até ali era que havia uma massa de células anormais, com um tamanho considerável, e a principal suspeita era um tumor no Timo. Se assim fosse, a cirurgia era a solução. Fácil e rápido de resolver. No entanto havia outra possibilidade, possibilidade essa que todos os médicos me omitiram, à excepção da Eliana, que era ser um linfoma. Era tão pouco provável que nunca pensei muito nisso. Andava ansiosa com tudo o que estava a acontecer, a espera de resultados estava a dar cabo de mim... Tentava estudar, para me abstrair do assunto e tentar fazer algumas cadeiras, mas,  simplesmente, não dava. Insistia em permanecer em Coimbra e ir aos exames, afinal não tinha nada a perder. Por outro lado, quando me chamassem do hospital para saber dos resultados era só sair da faculdade e ir ao hospital que fica ali ao lado! Pensei em tudo e, mais uma vez, saiu tudo ao contrário. 

Na madrugada de 2 de Dezembro senti uma dor fortíssima no peito, semelhante à dor da pneumonia, mas muito mais intensa. Acordei sobressaltada, respirei fundo e deixei-me ficar quietinha a ver se passava. Era uma dor intermitente, que de repente me invadia e me cortava a respiração. De manhã cedo pedi à Marina, minha amiga e colega de casa, que me levasse às urgências. Era essa a indicação que tinha por parte dos médicos da Pneumologia.  Nem queria acreditar que estava ali outra vez... Felizmente não estava muita gente e fui rapidamente atendida. Parecia que tudo se repetia. As mesmas perguntas, o mesmo procedimento... A médica mandou-me sair para fazer análises e pediu para depois aguardar na sala de espera. Passado uns minutos a médica voltou a chamar-me ao consultório. "Tão rápido?", pensei eu. Estranhei a atitude dela, achei-a nervosa. "Recebemos o resultado dos exames que fez enquanto esteve aqui internada". Fiquei calada, à espera que continuasse. "A Margarida tem um linfoma". 
Lamentou dar-me a notícia e disse-me que o médico hematologista já tinha sido chamado e viria à urgência falar comigo. Pediu-me para aguardar lá fora. Eu fiquei sem reação. Acho que não falei, não lhe respondi a nada do que disse. Levantei-me, saí e deixei-me cair numa cadeira. Não sei quanto tempo estive ali, a olhar para o nada e com a cabeça a mil. 
Peguei no telemóvel e liguei à minha mãe. Menti-lhe sobre o facto de saber o diagnóstico e disse-lhe para vir com o meu pai. Entretanto a Dra Fátima, da Pneumologia, veio ter comigo e levou-me para um consultório. Com as lágrimas nos olhos deu-me um abraço e eu desabei ali... Entretanto chegou o Dr. Pedro, bem mais frio e distante, e começou a debitar informação acerca do linfoma. "Tem um linfoma de não-Hodgkin das células B grandes do mediastino, um linfoma agressivo e característico da sua faixa etária. É um cancro, mas não é dos mais graves. Vai fazer quimioterapia e é para curar, tá bem?" Não, não está bem. Como é que eu tenho um cancro? Isso só acontece aos outros!

Combinamos que esperaria pelos meus pais e voltava a reunir-me com ele. Entretanto liguei à Pi, à Joana e à Eliana. Evitei falar com o Pedro, que tinha um entrevista nesse dia, e quando me ligou menti-lhe também... A Eliana materializou-se ali e ficou a fazer-me companhia. Ia respondendo às minhas perguntas e enxugando as minhas lágrimas. Quando os meus pais chegaram foi ter com eles, deu-lhes a notícia e trouxe-os até mim. Nunca mais me vou esquecer dos olhares deles a entrar na urgência... Nunca me vou esquecer do apoio da Lia, de tudo o que fez por mim naquele hospital e fora dele.
O Dr. Pedro voltou ao consultório, explicou aos meus pais o que se passava e que tipo de tratamento teria de fazer. A Lia colocou questões, os meus pais também. O médico explicou que a doença estava muito bem estudada, que não há restrições orçamentais em Portugal para tratar doenças hematológicas e, por isso, o protocolo que seguem em Portugal é o melhor. Não havia por isso necessidade de ser tratada a nível particular e, muito menos de entrar em ensaios clínicos. Só precisava de decidir se queria ser tratada em Coimbra ou no Porto, no IPO ou no hospital. Não fazia sentido ficar em Coimbra por isso decidi pedir transferência para o IPO do Porto. Depois de esclarecermos todas as dúvidas deixamos o hospital.

O meu irmão, a Maria, a Pi e a Bé apareceram em Coimbra, o meu pai voltou a Felgueiras, a minha mãe ficou comigo. Passámos a tarde na esplanada, a aproveitar o solinho. No dia seguinte  chamaram-me para realizar um exame, a PET. É um exame bastante demorado e, quando finalmente saí, a meio da tarde e em jejum, tinha as minhas amigas Rute e Raquel, que vivem em Barcelona, à minha espera. Só para me darem um abraço e dizerem que vai tudo correr bem. Sou uma sortuda... Tenho tantos e tão bons amigos!

Depois disto tudo regressei a Coimbra para uma última consulta de Hematologia antes de ser transferida para o IPO do Porto. Duas semanas depois de ter sido diagnosticada com linfoma de não-Hodgkin fui internada para começar o primeiro ciclo de quimioterapia. O resto da história já conhecem!

Neste momento estou prestes a entrar no 5º ciclo. Já só faltam 2 para acabar a quimioterapia! Tenho reagido bem, pensei sempre que todo este processo seria bem pior. Tenho dias maus, obviamente... Hoje foi um deles, acordei com uma enxaqueca horrível que se manteve até ao fim da tarde. Valeu-me a sessão de Reiki que fui fazer. Placebo ou não, alivia-me as dores e revitaliza a mente!

Depois deste post já não guardo nada do passado para contar. Tudo o que vier serão relatos do meu dia-a-dia. O blog vai assim abrandar um pouquinho... É que entretanto surgiu a oportunidade de realizar um exame na faculdade na época extraordinária de Março. Se o fizer agora é menos um exame que terei em Julho e por isso vou dedicar-me, intensamente, a ele. É difícil planear o estudo (comigo tem mesmo de ser planeado) quando o objetivo é viver um dia de cada vez. Ainda hoje os planos me sairam furados. Mas se há coisa que o cancro me ensinou é que não devo entrar em pânico se as coisas não correm como desejamos. Se correm de outra forma é porque tinha de ser. O segredo é aceitarmos e adaptarmo-nos às novas situações. O sentimento de revolta não nos leva a lado nenhum e, na verdade, a pior das situações tem sempre um lado positivo. 
Só temos de querer vê-lo! :)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Capa negra de Saudade

Não acredito que haja alguém neste mundo que goste de despedidas. Não me refiro ao simples "até amanhã" ou "até um dia destes" que tantas vezes pronunciamos, por vezes com uma certa leviandade. Refiro-me à despedida de verdade, o dizer adeus a algo que sabemos que, a partir daquele momento, deixa de pertencer à nossa realidade para passar a pertencer, definitivamente, ao passado. 

Hoje foi um dia de despedida. E por isso não foi o dia mais feliz dos últimos tempos... Tive de voltar a Coimbra, retirar da minha (ex) casa o que restava dos meus pertences. 
Foi um misto de emoções. Sair da IC2 e entrar na Fernão de Magalhães sempre me deu uma sensação de bem-estar inexplicável, como muito poucos locais me suscitam. O percurso contrário causou-me uma angústia inesperada... Sinto que não me despedi da minha cidade como deveria. Como diz o Pedro, não fiz o "luto". Foi uma saída atabalhoada, à pressa, contra a minha vontade. E isso agonia-me. 
Sei que vou lá voltar (até porque não acabei o curso) mas não será como antes, não sei bem explicar. O que eu sei é que levo esta cidade entranhada em mim. Sei que se fechar os olhos consigo reconstituir os mais diversos cenários, tão característicos, recordar os pormenores e transportar-me até lá. Não vou esquecer as corridas junto ao meu Mondego, os passeios no bambuzal do Choupal, a Universidade, a Alta, o Botânico e a Sereia, a paz da igreja de Santa Cruz, os momentos em torno do cheesecake e do chá das galerias, desde sempre e com as mais variadas pessoas. 

No caminho para casa lembrei-me que não fiz o registo fotográfico dos breves momentos que passei hoje com alguns amigos. Ando com esta mania de tirar um fotografia com todos aqueles que me vão acompanhando e com quem me vou reencontrando. Mas não faz mal, sei que estaremos cá todos para viver mais bons momentos, ainda que, eventualmente, breves. Que importância pode ter uma fotografia quando vos levo a todos no coração? Aos de hoje e aos de sempre. 
Nesta bela cidade vivi os melhores e piores momentos da minha vida. Formei-me enquanto pessoa e profissional. Fiz alguns dos meus maiores amigos, amigos para a vida, estou certa. E por isso vou amar e ser eternamente grata a esta cidade, por tudo o que me trouxe e pelo que fez de mim.

Coimbra é, para sempre, nossa!!





domingo, 24 de janeiro de 2016

Nem tudo são rosas

Parece que o meu post anterior, tal como o nome do meu blog, gerou opiniões controversas. 
A propósito de pareceres "menos bons" que recebi, venho assim esclarecer alguns pontos.

Sou frontal, como já devem ter percebido. Digo o que tenho a dizer da forma mais clara e simples possível.
Não quero de forma nenhuma "beliscar" pessoas que "interagiram" comigo no facebook, muito pelo contrário. Sou uma pessoa humilde, sinto-me lisonjeada pela atenção que me tem dado, pelos comentários que me têm feito, pelos likes e reações que me tem deixado. Sou-vos grata, do fundo do meu coração, por me ajudarem a atingir o objetivo deste blog. O meu maior apoio vem, logicamente, da minha família e amigos mas também de todos os que me enviam mensagens de coragem. Sim, de todos os que me enviam mensagens a dizer "Não nos cruzamos há anos mas estou a torcer por ti".

A minha forma de brincar com as vossas "interações" não é prepotente, não tem malícia... Porque eu não sou essa pessoa! Aqui transpareço o que sou, com um pouco de humor (foi isso que aprendi recentemente). Quem me conhece entende e alinha, quem não me conhece, entenderá ou não. Devia ter pensado nisso. Mas para além de todas as qualidades que acabei de enumerar acerca da minha pessoa, esqueci-me de referir que sou impulsiva e por vezes precipitada... Ah, e convencida! ;)

O que escrevo é a verdade, é o que acontece diariamente. São constatações de factos. Houve um dia  que recebi tantos pedidos de amizade, de pessoas totalmente desconhecidas, que tive de repensar a minha decisão. Lamento não poder aceitar todos os que enviaram pedidos e espero que o compreendam. O que quero partilhar convosco, desconhecido ou não, está aqui. E por isso criei este blog, para ser público.

A esta hora a minha amiga Pi está a dizer "lá está ela a justificar o que não precisa de justificar". É uma questão de paz interior. Sou assim, não há nada a fazer amiga! ;)

Agora sim, vou dormir descansada, bem preciso... Amanhã é véspera de quimio, o 3º ciclo já está aí à porta! O tempo passa a voar e daqui a nada ando por aí a dizer que matei o Barrabás!

Espero poder continuar convosco nesta luta até que esse dia chegue.

Beijinhos e abraços
Bem-haja


sábado, 23 de janeiro de 2016

100 papas

No dia em que decidi concretizar esta ideia do blog, resolvi partilhar essa vontade com os meus amigos mais próximos. Primeiro havia a necessidade de escolher um nome para ele... "contraLINFOMAção", "Linfoma feito ao bife", entre outros, as opções dividiam opiniões e lá me decidi pelo "Linfoma feito ao bife", pois era o que reunia mais consenso. Tentei, inicialmente, a plataforma (se assim lhe posso chamar) Wordpress, mas não entendia nada daquilo. Sempre fui uma naba nestas andanças e fiquei mais satisfeita quando o Maias comentou que, em tempos, teve a mesma dificuladade. Sugeriu-me que mudasse para o blogspot por ser mais intuitivo. E de facto é muito mais simples, mas esteticamente menos apelativo que o Wordpress. Por falar em estética, um dia destes tenho de tratar de mudar o design desta página... As cores e o formato convencional cansam-me. Se algum entendido na matéria quiser dar uma mãozinha, toda a ajuda é bem-vinda! Se não, quando já não tiver mais assunto para escrutinar, dedico-me a ver tutoriais no youtube! 

Depois da criação deste blog (ou para ser sincera, desde que as pessoas sabem que eu tenho cancro), tenho-me apercebido de alguns factos ou mudanças comportamentais interessantes, quer nas redes sociais quer na vida real. Elaborei uma lista, para melhor compreensão.

10 coisas que te acontecem quando tens cancro

1. Crias um blog para partilhar a tua expriência mas as pessoas insistem em interagir contigo via Facebook. 
Como já desabafei aqui, isto tem sido de loucos. Perdi a conta às mensagens que recebi no FB - inclusivamente de pessoas que não são minhas amigas - e consigo contar pelos dedos da mão as mensagens que recebi através do formulário de contacto que disponibilizei no blog. Mais valia ter seguido a segunda sugestão do Maias, uma página no FB...

2. Sabes que alguém ficou a saber da tua situação quando o número de likes que essa pessoa faz nas tuas fotos de FB dispara. 
Torna-se tão óbvio que não consigo evitar sorrir de cada vez que isso acontece. A sério, é engraçado ver como há um padrão geral de reação. Normalmente esses likes precedem uma mensagem que dirá qualquer coisa como "Fiquei chocado(a) quando soube mas quero que saibas, apesar de não sermos próximos(as), estou a torcer por ti".

3. Curiosos sensibilizados pela notícia fazem likes em fotos antigas e geram uma corrente de likes.
Isso não acontece só comigo, acontece no facebook dos meus amigos também. As fotografias estão lá há anos, nunca ninguém lhes prestou grande atenção. Desde que tenho cancro, os meus álbuns são passados a pente fino. As velhinhas fotos voltam a surgir no feed dos meus amigos facebookianos e eles reparam que nunca as tinham visto. Então comentam e fazem like. Fazem like não, reagem, e enchem-me o facebook de notificações! 

4. Comentam o teu blog como anónimo e não assinam.
Já me disseram que comentar no blog é difícil, os comentários vão parar a Marte. Como é óbvio não utilizo essa funcionalidade  e, por isso, não me apercebi dessa dificuldade, mas confesso que fico contente ao constatar que há gente tão ou mais naba do que eu! Quando finalmente conseguem comentar devidamente, depois de terem andado a apagar comentários e a pública-los como se fosse uma resposta ao próprio comentário deles, não assinam. Infelizmente eu não tenho um dedo que adivinha!

5. Nunca te viram mais gorda mas procuram-te no facebook e adicionam-te.
A partir do momento que o meu blog foi partilhado no FB, os pedidos de amizade não param. Ponderei bastante, aceito ou não aceito. Via que a pessoa até tinha partilhado o meu blog e aceitar o seu pedido de amizade era uma forma de "retribuir", ou ser simpática... Mas ou aceitava todos ou não aceitava nenhum. Resolvi aceitar todos mas a situação tornou-se insustentável. Porquê? Porque o meu feed de FB foi invadido por pessoas que eu não faço ideia quem são!! E, por isso, escusam de me adicionar porque eu só aceito quem conheço. Para satisfazer a curiosidade dessas pessoas - porque as pessoas vão atrás de uma coisa, que é saber como eu era, como era a minha vida, antes de eu ter cancro - tirei hoje uma foto (onde incluí o meu Charlie porque ele dá sempre um certo charme às fotografias) para me poderem comparar à vontade!



Já agora, deixei de ter problemas com a minha careca (tenho mais problemas com o frio que sinto nela)!

6. Descobres quem são os teus amigos.
Próximos, ou não tão próximos, eu tenho mesmo muitos, muitos amigos! 
Há de tudo. Há aqueles que:
- já se sabia serem nossos Amigos e reforçaram-no das mais variadas formas;
- pensávamos serem nossos amigos mas afinal não o são (porque nem sequer quiseram saber da tua situação e não tiveram uma palavra);
- há aqueles que sabes que são teus amigos, são solidários e tal mas preferem seguir o blog e nem sequer nos dão o feedback (se calhar tem dificuldade em submeter o comentário);
- há aqueles com quem nem temos proximidade (diria até que, em alguns casos, há uma certa antipatia...) mas ficam tão sensíveis que te desconcertam com uma mensagem...
- e, por último, há os amigos à D. Sebastião, que são aqueles que regressam de um passado longínquo!
Para todos os meus Amigos, o meu coração é como o meu smart, há sempre espaço para mais um! :)

7. Descobres que as pessoas que te rodeiam são fortalezas
São várias mas há duas especiais e que tenho de referir: os meus pais
A minha mãe raramente desaba. Quando acontece, normalmente numa situação de sofrimento para lá do normal, não a critico, muito pelo contrário. Emociono-me ao vê-la desarmada à minha frente. Sou uma chorinhas, sempre fui, mas agora ainda mais... Quanto à minha mãe, sei que ela recupera rapidamente o escudo!
O meu pai tem um escudo diferente. Sempre foi um beijoqueiro, daqueles que me obrigava a dar um beijinho antes de sair do carro à porta da escola...  Mas agora está pior. Agora é beijinhos e festinhas na cara a torto e a direito. Mas eu sou parecida com ele, por isso não há problema :)

8. Perguntam-te sempre a mesma coisa: "Estás bem?"
Sempre que vem esta pergunta sinto que ficam à espera que eu diga que não. Umas quantas vezes caio no erro de dizer a verdade. E depois penso que o facto de as pessoas saberem que me doi aqui ou ali não resolve nada. Pior, apercebes-te que, quem gosta realmente de ti, sofre mais com o teu cancro do que tu. Por isso, a minha resposta vai ser sempre "Estou bem", "Doi mas nada de especial". E não, não queiram ser perspicazes e perceber se eu estou a mentir.

9. Cancro = poupar dinheiro
Não pagas os tratamentos, ficas isento de taxas moderadoras. Voltas para casa dos teus pais, por isso são eles que pagam tudo. Tens alopécia, o que se traduz na maior fatia da poupança. Passo a explicar: quando se faz quimioterapia não cai só o cabelo, cai tudo o que é pêlo em crescimento. Por exemplo, nunca mais arranjei as sobrancelhas, elas deixaram de crescer (espero que não caiam). O mesmo é válido para o resto do corpo... É como se tivesses feito lazer e ele tivesse resultado! Quanto ao cabelo, não precisas de gastar dinheiro em champôs de tratamento. Já para não falar na poupança de tempo. Não tens cabelo por isso de manhã ficas pronta em meia hora!

10. The last but not the least... Tens um cancro, podes tudo!
És apaparicada por tudo e por todos. Passas a ser o líder em tudo. Mentiria se não dissesse que é fixe, mas cansa ao fim de algum tempo... Basicamente, fazes tudo o que te dá na gana e toda a gente te desculpa porque... Tens um cancro!

É o que vai acontecer com este post. Vão achar-me ingrata, prepotente, com a mania. Afinal mandaram-me mensagem no FB e eu respondi de forma amável... E foi sincero, garanto-vos. Mandem as mensagens que quiserem, quando quiserem, através da plataforma que quiserem. Eu agradeço a dobrar porque sentir o vosso carinho é fabuloso e ajuda-me a passar o tempo enquanto penso na resposta!! :D


Quem não compreende o tom de brincadeira deste post, é parvo e chato. Espero que o compreendam, mesmo!
Desafio quem se indentifica com algum ponto da lista a deixar o seu comentário.

Mas quando o finalmente conseguirem publicar, não se esqueçam... Assinem! 

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Cancro com Humor

Este post deveria chamar-se "Não há coincidências - Parte II". Mas como já há por aí muitas "Partes", vou-me cingir aquilo a que realmente este post diz respeito: Cancro com Humor.

O meu amigo Kiko, que é também ele um ACC (Amigo Com Cancro), sugeriu-me, há umas semanas, que visitasse um blog, Cancro com Humor. Gostei imenso do blog. Com um toque refinado de "safadeza", como diz a autora, consegue desmistificar por completo este tema (ainda) tabu. Não sendo uma seguidora assídua de blogs (ironia das ironias) comecei a seguir o blog da Marine.

A Marine teve cancro há 10 anos atrás. Curiosamente, um linfoma no mediastino. O cancro voltou a entrar na vida dela, desta vez fazendo-a passar por ele no papel de cuidadora. Uma história do caraças. Mas que ela recorda com... Humor! Uma combinção improvável, mas irresistível!

Há uns dias atrás comecei a seguir a página de facebook da Marine e deparei-me com os seus primeiros vídeos. Depois de umas boas gargalhadas resolvi mandar-lhe uma mensagem. Fiquei fã.
Entretanto a "tia" Irene ligou-me a falar da palestra que a Marine ia dar hoje na Casa Ronald Mcdonald. Disse logo que sim. Convidei a minha prima Verinha, sempre disponível, e a minha mãe que, com muita pena minha, não podia ir. Lá foram as 3 da vida airada para o Porto, mais precisamente para o Hospital de São João, cujo perímetro inclui a Casa. Esta instituição/organização é incrível. Extremamente bem decorada, com tudo o que é suposto haver numa casa, acolhe famílias carenciadas, proporcionando aos familiares dos pequenos doentes todas as comodidades que uma casa pressupõe e permitindo que acompanhem de perto os tratamentos, sejam eles no IPO ou no S. João. 
Agora sei para onde vai o troco do meu menu Double Cheeseburger com extra queijo... Sim, vai para aquela caixinha onde nunca vi ninguém colocar moedas!

Nunca me passou pela cabeça conhecer a Marine pessoalmente mas a oportunidade surgiu e, como tinha gostado tanto dos vídeos, achei que não me ia arrepender de assistir à sua palestra. Não só não me arrependi como superou todas as minhas expectativas. Confesso que hoje não tinha grande vontade de ir... O "coiso", ou Barrabás, resolveu fazer "cucu"... Mas já tinha tudo combinado e fiz o esforço. Ainda bem que o fiz. Hoje aprendi várias lições, entre elas a "Vale sempre a pena sair de casa, mesmo que tenhamos um cancro a fazer-nos a vida negra", não fosse o cancro um "excelente educador".

A Marine é uma pessoa fantástica. Bem disposta, com uma alegria contagiante, é daquelas pessoas com quem criamos empatia ainda que não tenha havido contacto verbal direto. Incitou o público a participar na palestra e respondi a muitas das suas questões em surdina. Não gosto, nunca gostei, de falar para muita gente. Sei que coraria assim que me atrevesse a fazê-lo e escolhi ouvir as respostas dos outros. Felizmente a plateia era uma plateia ativa. Relatou a sua experiência com muita piada: pôs-me a rir e a chorar. Contive-me várias vezes para as lágrimas não me caírem. Como ela diz, "É da quimio", "os medicamentos deixam-me alterada" e com "as emoções à flor da pele". São boas desculpas! Mas também sorri e ri muito por detrás da minha melhor amiga, a máscara verde.
No final houve tempo para fotografias ao estilo da Ellen DeGeneres e selfies com a protagonista Marine. Ganhei o dia com a breve conversa que tive com ela e ainda ganhei um abraço. Dos verdadeiros.




Obrigada Marine por esta tarde excelente que nos proporcionaste. 
Continua com o teu trabalho maravilhoso, com o teu sorriso, energia e presença que tantos Carecas Power, como eu, inspira.
Bem-haja!



Vídeos da Marine:



domingo, 17 de janeiro de 2016

A Revolta dos Pastéis de Nata

Nos últimos tempos, por força das circunstâncias, tenho vindo a constatar que a alimentação no doente oncológico é da máxima importância. Todas as pessoas com experiência direta ou indireta nestas coisas dos cancros e das quimioterapias dizem que a alimentação não foi o ponto mais crítico da situação, mas todas relatam, sem excepção, algum episódio "gastronomicamente" menos positivo.

Tive sorte de, neste segundo ciclo, não ter enjoado de nenhum alimento (lá estás tu a meter a carroça à frente dos bois... o 2º ciclo ainda não acabou!), mas no primeiro não tive escapatória...

A minha amiga Carolina, vinda diretamente de Lisboa para me visitar no fim-de-semana antes de Natal, e sabendo como sou perdida por Pastéis de Belém (ou era!) trouxe consigo 2 caixinhas deles, bem fresquinhos! Nesta altura há quem pense que eu devorei 10 pastéis, mas vá, também não sou assim tão gulosa! Comi apenas um. Soube-me pela vida. É um sabor tão nosso, tão português!
Na impossibilidade de receber mais do que duas pessoas por dia no internamento do IPO, ofereci uma das caixinhas ao pessoal lá do sítio. Apesar de se destinarem a serem comidos por mim e pela minha família, soube-me bem poder dar um miminho tão saboroso às enfermeiras e auxiliares que estavam ao serviço naquela tarde.

Como eu estava a dizer, comi apenas um. Não me perguntem o que aconteceu, mas depois daquele pastel não consegui comer mais nenhum. Nem olhar para a embalagem tão característica daquela casa eu podia. De todas as vezes que o fazia ficava de tal forma nauseada que tive de os fazer desaparecer da minha mesa de apoio... Conhecendo a Carolina como conheço, e sendo ela uma menina de Cascais, sei que quando ler este post vai pensar: "Que aborrecimento, fui transtornar o apetite à miúda!". Minha querida, a culpa não é tua, descansa, mas sim do raio do tratamento!!

Apercebi-me, neste preciso momento, que passou exatamente um mês desde essa visita. E desde então que a aversão a pastéis de Belém se mantém. 
Já não sei a que propósito, no dia de Natal comentei esta aversão recentemente adquirida à mesa, enquanto jantávamos cá em casa. A minha avó, já de uma certa idade, não entendeu que falava dos ditos pastéis com uma certa repulsa e fez questão de frisar "Guida, sabes como eles são bons? Quentinhos, mesmo a sair do forno!". Eu tentei a todo o custo afastar aquela visão do inferno e, num alvoroço, todos os que estavam à mesa tentaram mudar de assunto. Ela, coitadinha, não percebeu. E resolveu frisar de novo "E com canela e açúcar em pó por cima?!". Foi risota geral!

Deixando os pastéis (que já não posso ouvir falar) e voltando à importância da nutrição... Como só tenho consulta de Nutricionismo no IPO marcada para fevereiro, empenhei-me em saber mais sobre o assunto. Comprei um livro, de umas autoras espanholas e, entretanto, a Belinha ofereceu-me outro, lançado recentemente, que compila receitas de vários chefs de cozinha especialmente dirigidas a doentes oncológicos em fase de tratamento.


Ainda não tive oportunidade de explorá-los a 100% mas como facilmente se prevê, estão repletos de dicas e conselhos nutricionais para prevenir a desnutrição durante os tratamentos de quimo e radioterapia. Têm, inclusivamente, indicação de quais os melhores alimentos para combater ou evitar determinados sintomas que frequentemente surgem. O "Comer para Vencer o Cancro" está dividido em duas partes, uma onde constam os tais conselhos e outra que aborda a nutrição como uma via de prevenção de certos tipos de cancro. Ou seja, não são livros que se destinam, exclusivamente, a doentes com cancro, mas sim ao público em geral, o que os torna menos enfadonhos e mais interessantes para todos cá em casa!

Com tantas receitas nem sabia por qual começar mas optei por uma do Chef Henrique Sá Pessoa, uma omeleta-soufflê de cogumelos acompanhada por uma salada de rúcula. Tentei que a minha avó participasse ativamente na confecção da receita, visto ser também ela uma grande entusiasta de cozinha e sábia no que diz respeito a cozinha tradicional portuguesa. 

Não sou uma fotógrafa exímia, apesar de essa área me atrair bastante, mas prometo que vou dar o meu melhor, não só na cozinha como na foto reportagem, pois o objetivo é partilhar algumas dessas receitas aqui no blog. Para minha e vossas delícias :)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Quem é vivo sempre aparece!

Confesso que nem sei muito bem como começar... Ou melhor, até sei. Foi a Sara, a culpa é toda dela, da minha Sarita. Partilhou o link para o meu blog no Facebook. E como partilha gera partilha, comentário gera comentário, mensagens e pedidos de amizade. Fui "bombardeada" com carinho, apoio, motivação, energias positivas. Tentei não falhar com ninguém e fiz questão de responder a cada um. Perdoem-me se me escapou alguém mas isto hoje parecia uma central!! É cansativo? É... Mas é maravilhoso! Se havia dúvidas da minha parte acerca da minha capacidade de levar este espaço para a frente, dissiparam-se por completo. Agora sinto o peso da responsabilidade, aquilo que escrevo vai ser lido por outras pessoas (muitas, por sinal). De repente, sinto que tenho um compromisso, um objetivo... E sorrio: era mesmo isto que eu precisava! 

Fui surpreendida por certos e determinados remetentes. Não estava à espera, juro. São pessoas que não fazem parte do meu dia a dia, de todo. Fizeram parte dele, sim, num passado mais ou menos remoto. E o facto de, ao serem confrontados com a notícia, sentirem necessidade de entrar novamente em contacto comigo deixa-me com muita esperança. Esperança em mim e na Humanidade! A minha avó Mariazinha, como todas as avós, está sempre a dizer que o mundo está perdido. Mas eu sei que não está e digo-lhe que ela tem toda a razão só para lhe dar o prazer de levar a melhor ;)

Podia aqui agradecer às minhas amigas que, tão prontamente, partilharam o blog. Mas não vou fazê-lo porque nas verdadeiras amizades não há cá salamaleques. Então vou agradecer a quem?! Ao Barrabás, pois claro! Dispenso a sua presença e não gostei nada, mesmo nada, de o conhecer. Mas se ele não existisse não estaríamos aqui. No meio de experiências menos boas, proporcionou-me um belo serão!

Hoje vou dormir cansada mas de coração e alma cheios.