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sexta-feira, 11 de março de 2016

Guida 6 - 0 Barrabás

Lição do dia: nunca tentem remarcar uma consulta no IPO. Resolvi seguir a sugestão da Dra Ilídia na consulta passada (5º ciclo) e tentei mudar a consulta de quarta para quinta-feira, dia em que tinha hospital de dia, assim evitava a viagem ao Porto duas vezes. Foi pior a emenda que o soneto, como se costuma dizer. Não só me remarcaram a consulta como também remarcaram as análises, e o hospital de dia... Quase tudo para a mesma hora! Quando me apercebi destas trocas absurdas liguei para lá. Deram-me um conselho à Português... "Olhe, venha, e depois logo se vê!"

Às 13.30h, hora marcada para as análises já estava na sala de espera. Que diferença, é tão melhor fazer análises a esta hora: sala com pouca gente, tempo de espera mínimo. 
Depois das análises fui tentar resolver o imbróglio dos horários sobrepostos. Está fora de questão fazer quimio sem consultar o médico, mas conseguiram marcar-me a consulta para depois da hora da quimio! Só havia uma opção, esperar pela consulta das 15h40 e rezar para que não me adiassem o tratamento para o dia seguinte. Acho que nunca desesperei tanto na sala de espera da clínica de Onco-hematologia. Tinha um livro para ler mas mal consegui pegar nele. Primeiro porque há múltiplas distrações e eu gosto de ler sossegadinha no meu canto e depois porque estou a gostar imenso dele e acho que iria, de certa forma, marcar o livro com a memória de o estar a ler e a terminá-lo naquela sala de espera. Esperei quase 3 horas pela consulta. Passou-me tudo pela cabeça: o resultado da PET podia alterar todo o cenário previsto inicialmente. Podia prolongar o tratamento ou, por milagre, dispensar a concretização da sexta quimio! Ou então mantinha-se tudo como previsto. 

Finalmente chamaram-me. Falso alarme, quando ia a entrar no consultório dizem-me para voltar para a sala de espera porque ainda não havia resultado das análises. Afinal não há grande vantagem em ir fazê-las numa hora de menos "trânsito"... Quando estava a atingir o pico do desespero, chamaram-me pela segunda vez, até que enfim!!

Vou tentar resumir muito rapidamente o tempo que passei com a minha médica. 
Fez-me as perguntas habituais sobre como tenho passado e se sinto algo de diferente. Demonstrou alguma preocupação quando lhe disse que estava constipada há uma semana e que não há grande sinal de melhoras... Mas desde que não tenha febre, nem tosse com expectoração está tudo bem! E agora vamos ao que interessa: resultado da PET. O exame mostra ainda alguma positividade. Prefiro substituir esta palavra, usada pela médica, por atividade. Ou seja, há ali qualquer coisa a dar sinal. Mas é um sinal residual. Podem ser ainda células malignas mas também pode ser resultado do processo de inflamação, do processo de morte de celular. A minha mãe perguntou se há a possibilidade de permanecer e, consequentemente, viver com uma massa de células que, eventualmente, resistissem ao tratamento. A médica explicou que é como uma corte na pele... Fica sempre uma cicatriz. Neste caso é mais ou menos isso. Posso ficar sempre com umas célulazitas, que, não sendo malignas, são células diferentes das normais. Foi a minha vez de perguntar, como podemos ter a certeza de que o linfoma bateu a bota? Ora bem, só fazendo uma biópsia. 

Em vez disso, vamos seguir com o protocolo e passar à radioterapia. O que quer que seja e que ainda lá está não há-de resistir à radiação. Foi aqui que percebi que está tudo a correr dentro do previsto. O linfoma de 12 cm está num estado residual... Ao fim de 4 ciclos! Não podia ser de outra forma, eu disse, desde o início, que este linfoma estava feito ao bife!!! :D

O próximo passo é uma segunda PET, que vai ser feita daqui a umas 3 semanas. Pedi à Dra para a marcar só depois de dia 31, assim não atrapalha o meu exame na faculdade. Acedeu ao meu pedido e vai ser marcada para o início do próximo mês. Depois disso segue-se uma consulta com a médica da radioterapia, a Dra Marta. Com os dados da PET ao fim dos 6 ciclos, a minha nova Personal Trailer vai estabelecer um novo plano de tratamento. Agora estão na moda aqueles treinos de alta intensidade, para melhores resultados... A radioterapia é mais ou menos isso, obriga-me a ir ao IPO 5 vezes na semana. Vai ser dose!

As boas notícias continuam. Daqui a duas semanas os meus valores sanguíneos vão voltar ao normal, as minhas defesas vão ficar minimamente restabelecidas. Minimamente porque, como me disse a médica, recuperar a integridade do meu sistema imunitário vai demorar uns meses... Mas, entretanto, posso voltar à minha vida normal. Vou poder viajar em transportes públicos (= ir a Lisboa ver o meu namorado e amigos por 20 euros na Ryanair), nadar, inscrever-me no ginásio, comer as framboesas que tanto adoro, uma simples salada de alface e tomate quando for a um restaurante, ir a um espetáculo, ir ao cinema sem que ninguém fique a olhar para a minha máscara... Coisas simples, aparentemente, mas tão essenciais para mim!

Às 17.30h comecei a quimio. A enfermeira responsável por me administrar o tratamento de hoje perguntou-me como estava a ser esta caminhada. Os meus olhos encheram-se de lágrimas quando lhe disse que era a última. Os dela também (uns olhos azuis brutais). Contei-lhe da PET, da radio, dos meus planos para os meses que aí vem, enquanto ela me dava a injeção de Rituximab que demora séculos... Vá, uns minutos, porque a solução é tão espessa que custa a entrar no corpo!



Recostei o cadeirão o mais que pude e adormeci. 
E, de repente, passou-se a quimio. Acabou, finito!! 
Nunca mais vou ter de esperar horas pela minha vez nas diversas salas de espera, nunca mais vou ter de ser picada 3 vezes em sítios diferentes no mesmo dia, nunca mais vou ter de me sujeitar à seca das horas intermináveis naquele instituto, que tem tanto de mau como de bom. Pelo menos nas próximas 3 semanas!
Não acabou o martírio do cancro (que começou faz hoje, precisamente, 4 meses), para já acabou o martírio da quimioterapia. Para mim, para o meu pai, para o meu irmão, para a minha mãe, que é a pessoa que nunca sai de ao pé de mim (ou como se diz cá em cima, da "minha beira"), tanto fisicamente como no pensamento. Para o Pedro, que apesar de estar longe é um dos meus pilares. Para toda a minha família, para todos os meus amigos. 
Outras etapas se seguirão, fardos bem menos pesados que vou ter de suportar. 

Depois disto, tudo o que vier são "peaners"!

Agora vou dormir, que o tratamento dá-me um cansaço desgraçado. 
Mas não podia deixar de passar por cá e contar as boas novas. Quem me acompanha sempre merece esse meu esforço. Porque foi a energia de todos que me fez chegar aqui. Lembrei-me, neste preciso momento, do anúncio da Galp que diz que se queremos chegar rápido vamos sozinhos mas se queremos ir longe, vamos juntos. 
Fintar um linfoma e dar-lhe 6 a 0 não foi fácil mas OBRIGADA, do fundo do meu coração, pela vossa energia, que gerou mais energia em mim!


PS: Nas próximas semanas tenho de dedicar-me, com todas as minhas forças, ao estudo para o exame que vou realizar. O meu rendimento mental não é o mesmo nesta fase (ainda estou sob o efeito da quimio) e por isso tenho de redobrar o esforço. Não estranhem a minha ausência se, eventualmente, acontecer.



quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Reta final!! :D

Mais uma semana, sete dias carregados de acontecimentos marcantes. Uns bons, outros maus, uns esperados,outros nem por isso... De todos eles, destaco os positivos, nomeadamente a visita dos meus amigos, que vieram de Lisboa, onde vivem e trabalham, apesar de serem uns transmontanos e minhotos de gema! Tanto a Ana, como o Kiko, como a Bia, são meus amigos há muitos anos e são aquele tipo de amigos que estão sempre longe e ao mesmo tempo sempre perto. Toda a gente tem um ou outro amigo assim. Eu gosto de pensar que sou especial no toca a matéria de amigos desta categoria, porque não tenho um ou dois, tenho uma mão cheia deles!

Primeiro a Bia, pequenina em altura, grande de coração, que veio alegrar a minha tarde de estudo com uns docinhos e um chá, algumas horas de conversa e um abracinho forte, cheio de boas energias!



Depois a minha Ana Maria (aka Sardinha) que aproveitou a escapadela do seu Manel  para vir passar um fim-de-semana a Felgueiras. O fim-de-semana afigurou-se curto, mas foi suficiente para dar uns belos passeios, aproveitar o sol e ainda nos proporcionou umas aventuras que envolvem cães da raça Yorkshire perdidos - ou abandonados (mas nem quero pensar nisso) - em plena auto-estrada!



A Ana é aquela amiga, meia maluca, que se conhece na universidade e que marca a vida de quem se cruza com ela, pela sua genuinidade, espontaneidade e, claro, por ser mais que uma amiga, uma irmã!


Esta semana tive de ir três vezes ao IPO. Na segunda tinha análises e consulta, terça tinha de ir fazer a PET e na quarta a quimio. 
Como devem imaginar a minha vontade de lá ir três vezes era mínima e, apesar de ter dormido em casa da Pi no domingo (e por isso já estava no Porto), consegui chegar atrasada às análises. Sair da cama de manhã é uma odisseia!! O que vale é que nas recepções dos serviços por onde passo ninguém se chateia comigo por não chegar a horas, assim até espero menos pela consulta :)

A Pi, sempre presente, acompanhou-me desta vez na consulta e teve o prazer de conhecer a querida Dra Ilídia. De olhar ternurento, gaba-me sempre o turbante que faço com os meus lenços e deu uma gargalhada contagiante, tal como esperava, quando a Pi lhe mostrou a nossa fotografia com as perucas de carnaval!
As análises estavam mais ou menos boas, mas nada de preocupante. Não me impediu de fazer o tratamento e aumentou-me as injeções que estimulam o corpo a restabelecer os níveis sanguíneos no período de descanso entre quimios. Marcou-me, como sempre, um raio x. Ou melhor, tentou marcar! O sistema não funcionava nem por nada e acabei por não conseguir fazer o raio x nesse dia. 
À hora de almoço estávamos despachadas e fomos almoçar as duas, como já não fazíamos há muito tempo, mas desta vez com vista privilegiada para o Douro!



 No dia seguinte, terça-feira, tinha a PET marcada para as 13:30. Ainda tentei fazer o raio x que a Dra Ilídia tinha pedido mas continuava sem estar marcado. Telefone para aqui, telefone para ali, nada feito. E com isto já estava atrasada para a PET. 

A PET é um exame que demora bastante tempo pela preparação que requer. É-nos injetada uma solução radioativa e temos de esperar que esta percorra todo o corpo. Depois vamos à máquina de TAC e é rápido mas até lá são umas três horas que ficamos à seca. Ainda por cima temos de ficar quietinhos e sempre na mesma posição para que haja uma distribuição uniforme da solução. Nada de ler, levar o telemóvel ou tablet. Ou dormimos ou ficamos a pensar na morte da bezerra! 
A enfermeira vem com uma barra de metal que me faz lembrar um supositório em tamanho gigante! Desmonta-o e sai de lá uma agulha com a substância radioativa. "Sabe que não pode estar com grávidas e crianças no dia de hoje não sabe? E quando for à casa de banho tem de puxar o autoclismo duas vezes?" Sim, já sei isso tudo! Depois de uma hora à espera para ser chamada, fiz o exame e saí às 18:15h. Sem comer. Valeu-me a minha mãe que pensa em tudo. Às 7 da manhã de terça-feira acordou-me e levou-me o pequeno almoço à cama, assim perfazia as 6 horas de jejum e sempre ia com o estômago mais confortável! 

Quando saí tinha o Kiko à minha espera. E agora preciso de contar o porquê de ser amiga do Kiko. Não somos da mesma terra, não tiramos o mesmo curso e nem sequer estudamos no mesmo sítio. Ele é de Vila Real e vive em Lisboa. Mas é, desde sempre, o melhor amigo de uma grande amiga minha e, por caminhos tortuosos, tornam-nos amigos também. Conhecemos-nos no dia em que o namorado dessa nossa amiga morreu, de cancro. O cancro uniu-nos nesse dia e insiste em não nos largar. O Kiko está a recuperar neste momento de um cancro, eu estou a tratar e hei-de recuperar dele também. O Frederico (já estou farta de escrever Kiko) é enfermeiro no IPO de Lisboa, trabalha com cancro todos os dias e disse-me, ainda ontem, que não se vê a trabalhar noutro lado, porque precisa do doente oncológico, são eles que o fazem sentir realizado e feliz no trabalho, apesar de ganhar uma ninharia ridícula, como tantos enfermeiros ganham por este país fora. Assim, e como podem constatar, o Kiko é um ser especial, de uma candura e sensibilidade que poucos homens têm.





Sempre que ia a Lisboa nunca conseguia ver o Kiko, pois ele além de enfermeiro dedicado é professor e está a tirar a especialidade. Tem por isso uma agenda ocupadíssima! Não nos víamos há quase 2 anos. Não nos reencontramos nas melhores circunstâncias, mas assim que o encontrei parecia que tínhamos estado juntos no dia anterior numa qualquer esplanada a dar duas de treta. Continua tudo igual o que me leva a crer que esta amizade será para sempre.

Fomos jantar, levou-me à quimio no dia seguinte, foi meu motorista e indiquei-lhe o caminho para o estabelecimento de Felgueiras onde se comem umas panquecas com mel de fazer crescer água na boca. Tratamo-nos bem, portanto!
Hoje foi embora, e sinto a falta dele. Fez-me lembrar de quando era mais nova e a Valéria, minha amiga e futura mamã, passava uma semana e tal em minha casa no Verão. Eram 24 sobre 24 horas juntas e sempre que se ia embora sentia muito a falta da minha companheira! Com o Kiko ficou a pairar o mesmo sentimento e por isso fica a promessa de que quando for a Lisboa ter com o Pedro vamos todos comer uma grande sushizada... Sim kiko, não penses que me esqueci! ;)

Para terminar e acabar bem o dia, recebi um raminho de umas flores vermelhas cujo nome não consigo reproduzir... A tia Irene, mesmo que queira comentar aqui no blog não vai conseguir fazê-lo (há determinadas pessoas que não conseguem mesmo) e por isso vou-me manter na ignorância! 


(Pedro, estou pronta para casar!! :p )

Mas não podia deixar de partilhar aqui estes miminhos que, de vez em quando recebo, e me deixam muito feliz.

Faz-me sentir que gostam de mim, que se preocupam comigo e que me têm no pensamento. Sei que estou no pensamento de muitas, muitas pessoas, todos os dias. As mensagens continuam a chegar e sinto-me cheia de energia (apesar de ter feito quimio ontem), transmitida por todos os me acompanham, de longe ou de perto, por saber que já só falta um ciclo, pelo fim-de-semana que se aproxima (e que com ele traz o meu amor) e por saber que esta fase, apesar de má, vai ser passageira. Só é preciso um bocadinho de paciência e "botar" um sorriso na cara, como diz a música!

E é com o meu sorriso que vos deixo. Um sorriso e uma carequinha orgulhosa!
Beijinhosss






quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

É carnaval, ninguém leva a mal!

Antes de mais, preciso de confirmar que há, de facto, luz ao fundo do túnel. Na consulta de rotina que tive na segunda, fui vista por uma substituta da Dra Ilídia, uma vez que esta se encontrava doente. Já não me lembro do nome da médica, mas era igualmente simpática e querida. Mostrou-me o 1º e último raio x que realizei... Há uma diferença abismal, creio que o linfoma de 12 cm deve ter sido reduzido a metade, só com 2 ciclos de quimioterapia. Ficamos radiantes, eu e a Sarita, que me acompanhou naquela consulta. Já suspeitava, mas entre suspeitar e visualizar vai uma grande diferença. É que no princípio, para além de sentir os efeitos daquela quimio pesada sentia também dores, provocadas pela compressão do linfoma no pulmão e vértebras, bem como umas palpitações que me impediam de dormir descansada... Agora já só sinto os efeitos da quimioterapia, que, entretanto, também se tornou mais leve. Continuo sem dormir uma noite seguida mas isso é por causa das variações bruscas de temperatura corporal que sinto devido às alterações hormonais que a quimio causa. Adiante...

Tive pena de não ter encontrado a Dra Ilídia. Sei que ela iria dar uma grande gargalhada quando me visse com uma peruca roxa! A ideia foi da Pi, comprou perucas para mim, para ela e para a Sarita e lá fomos nós naquela bonita figura para o IPO. Foi o meu carnaval, e foi um carnaval especial. Não me mascarei a rigor, não tive jantar com os amigos e não fui sair à noite. Mas arrancamos sorrisos naquelas salas e corredores. Ainda que fugazes, foi uma boa recompensa! 



Depois da consulta com a médica fui à tão esperada consulta de nutrição. A nutricionista, tão jovem quanto eu, procurou saber quais as minhas dúvidas em relação à alimentação. Quando lhe disse que tinha ganho algum peso (penso que devido ao corticóide que faço) focou-se completamente nesse aspeto. Foi um consulta de nutrição, não de nutrição oncológica. Não acrescentou nada de novo aquilo que eu já sabia e já tinha lido. Aliás, no que diz respeito a dicas para contrariar náuseas, não disse mesmo nada de jeito. Proibiu-me as framboesas (bolas!!) e as saladas, mesmo que devidamente "amukinadas"... Um dia destes faço um post sobre dicas de alimentação. Há imensas coisas que, por serem tão naturais e banais no dia a dia, nem nos passa pela cabeça que possam constituir um perigo!

Depois desta consulta e como só tinha hospital de dia às 15.30, fomos todas almoçar. A Bé só saiu às 14h do S. João e, com uma hora de almoço apertada, não pudemos ir muito longe. Ficamos por ali mesmo e encontramos uma casa de hamburguers artesanais (ai se a nutricionista sabia...). Não eram nada de especial. Especial foi a companhia. Somos amigas há muitos anos e momentos assim, só das quatro, são cada vez mais escassos e, por isso, são momentos únicos!



No final, a Pi e a Bé foram à vida delas e eu e a Sarita voltamos ao IPO, ao hospital de dia. Nunca esperei tanto tempo até ser chamada, foram quase 2 horas! No entanto, nunca o tempo passou tão rápido como desta vez... Não há melhor rede social que uma sala de espera! Pela primeira vez meti-me à conversa com os meus companheiros de luta. 

Conheci a Paula, uma senhora da idade da minha mãe, um pouco mais nova talvez. A Paula contou-me o percurso todo dela... E que percurso! Já conta com 31 sessões de quimioterapia, está toda metastisada. Disse-me que não tem um cancro, tem vários. Tantos que nem sabe quantos são. Esteve tão mal que lhe ofereceram um quarto privativo nos cuidados paliativos, para lhe poderem proporcionar uma morte mais "digna". Milagrosamente começou a melhorar e neste momento faz quimio atrás de quimio para se manter viva. O que a faz lutar é o sorriso da filha, do marido e dos pais logo pela manhã. Não tem qualquer outro objetivo de vida se não esse. Algo tão simples e tão essencial... Senti-me pequena, tão pequenina ao lado dela! 

Ao mesmo tempo que a Paula descrevia a sua experiência conheci um senhor, também ele da idade do meu pai, mais coisa menos coisa. À filha dele, que estava na sala de tratamento a fazer a 1ª quimio, foi diagnosticado o mesmo tipo de linfoma que me foi diagnosticado a mim. A partir do momento que tomou conhecimento deste facto o senhor nunca mais me "largou". Fez pergunta atrás de pergunta, como se eu fosse um anjo caído do céu pronta a responder a todas as suas dúvidas. Estava visivelmente perturbado e preocupado com a sua querida filha e com a forma como ela está a encarar a situação. Saquei do meu caderninho azul da Sandoz que o Pedro me deu e rasguei uma folha onde escrevi "Linfoma feito ao bife". Entreguei-lha para que ele a entregasse à filha. Gostava de a ajudar, mostrar-lhe que o futuro parece negro mas podemos aclará-lo se assim o quisermos. Vi  espelhado na cara dele o sofrimento e lembrei-me do meu pai. Tal como ele, aquele senhor diante de mim repetia vezes sem conta que faria o necessário para tornar a caminhada que a sua filha está prestes a enfrentar menos penosa. Tal como o meu pai, ele só lhe queria tirar as pedras do caminho. O pai da Paula também lá estava na sala de espera. Afinal todos os pais e mães querem o mesmo, amparar as quedas dos filhos, ajudá-los a levantar e a enfrentar o caminho de novo. 

Quase fizemos uma festa quando às 17.15h chamaram pelo utente das 15.30, Sala 1, cama 106! Lá nos instalámos, eu melhor que a Sarita, claramente! Catéter na mão, injeção de anticorpo na barriga e estava tudo pronto para a tão esperada soneca!


Até adormeci com a cabeleira posta! A pobre da Sarita é que ficou ali a olhar para mim e a atender os meus telefonemas, como se de uma secretária se tratasse! "A Guida está a dormir", "O tratamento começou tarde por isso não vamos daqui muito cedo!" ouvia eu, meia a dormir, sem abrir os olhos... Vá não foi assim tão mau, às 9 da noite já estávamos em Felgueiras! 

Saí de lá com uma sensação de cansaço extremo, como é habitual. Nunca corri uma maratona, mas a sensação não deve ser muito diferente! No dia seguinte a sensação mantém-se. Só mais tarde vem os enjoos e outras coisas mais. Não são fortes, não me impedem de comer, mas tenho de me obrigar um pouco. É um mau estar geral, física e psicologicamente. 
Mas passa, tudo passa!

Agora é aproveitar, da melhor forma possível, os 15 dias de descanso que aí vem! :)


terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Boas notícias!!

Há notícias que caem como mel. Foi o caso das notícias que recebi ontem na consulta com a Dra Ilídia.

Ontem acordei ainda não eram 7 da manhã. Um temporal, com trovoada e tudo, acontecia do lado de lá das janelas do meu quarto e pensei para mim mesma que não seria um bom presságio. Levantei-me com uma neura desgraçada, daquelas que nos levam a tratar os nossos entes queridos do piorio. Ninguém merece aturar-me, a mim e às minhas neuras.

Chegar ao IPO é sempre um tormento. Demoro mais tempo a sair da A3 e a entrar na Circunvalação do que a fazer a A42 toda. Já houve piores dias mas a verdade é que, como sempre, já ia atrasada. Desta vez, quem fez o enorme favor de me acompanhar foi o meu irmão. O primeiro dia de tratamento é muito saturante. É IPO de manhã até à noite.

De máscara posta lá entrei na caótica sala de espera das colheitas. Às 9.30 já estava despachada e sabia que tinha pela frente duas horas de espera até à consulta. Fomos até à cafetaria, para o primeiro café da manhã. Não teve aquele efeito rejuvenescedor tão característico, pelo contrário. Só de pensar nos dias difíceis que me esperavam já sentia náuseas. Li sobre isso e é possível que ocorram náuseas nos dias que precedem a quimio. Não sei se se tratará de algum efeito psicológico, mas pelos vistos acontece e, por momentos, pensei que padecia dele.

Chamaram-me para a consulta e fui encontrar a Dra Ilídia acompanhada de uma jovem médica em formação. Lembrei-me da Bé e de como me orgulho dela por ter conseguido entrar na especialidade de Oncologia como sempre sonhou. É preciso ter estofo e muito amor à camisola!

Levava comigo um CD com as imagens de um exame que tinha feito em Coimbra, uma PET (basicamente é um exame onde nos injetam uma substância radioativa que se vai ligar a zonas do corpo onde existam células com uma taxa metabólica elevada, como é o caso de células tumorais. Assim é possível fazer diagnósticos, controlar a eficácia de uma terapêutica e encontrar metástases). 

Este exame é necessário, bem como o biópsia óssea, para definir o estadiamento da doença. Esta biópsia foi já a Dra Ilídia que realizou (dói "comó carago!") mas a PET foi realizada ainda nos HUC e ficou de ser enviada por correio para o IPO. Como diz a Sofia, deve ter vindo de tartaruga e não pelos CTT, a avaliar pelo tempo que demorou. Demorou tanto tempo que resolvi acionar os meus próprios meios, que é com quem diz, tráfico de influências, e pedi à minha agente secreta que conseguisse o exame para mim sem ter de me dirigir aos HUC e pagar por um exame que é meu por direito. 
No entanto, a Dra Ilídia acionou também os meios dela e ontem já tinha consigo o exame. 
Juntamente com a biópsia, as imagens definem o estadiamento, tipo e duração do tratamento. A equipa médica da Hematologia já tinha reunido e avaliado os exames e decidiram que o estadio do meu cancrozinho é o 2. Cancrozinho não, porque o malvado mede 12 cm. E como tal, no final, vou ter de realizar radioterapia, que é o que se utiliza para massas volumosas e localizadas. Não me agrada, pelos efeitos que traz a longo prazo... mas antes radioterapia que quimioterapia. Sendo assim, há boas notícias! Não são resultantes do tratamento prescrito inicialmente, é mais um ajuste à minha realidade, ou à realidade do Barrabás. 
Não interessa, são notícias maravilhosas! 

Retiraram-me um dos fármacos, o Etoposido. Vou deixar de fazer R-CHOEP para fazer R-CHOP. À primeira vista a diferença não parece ser muita. Mas é. E foi esta diferença que me iluminou e me fez abrir um sorriso de orelha a orelha: a minha quimio passa a ser de um dia e não de três! Para além disso, este medicamento que me retiraram era o causador dos piores efeitos secundários. Aquele medo, irracional, que se tinha apoderado de mim e me fazia questionar "O que me vai trazer de novo este ciclo?" desapareceu, pura e simplesmente, porque a causa também desapareceu. E como uma boa notícia nunca vem só, fiquei a saber que só vou ter de fazer 6 ciclos. Tinham-me dito 8, porque não sabiam, ao certo, o estadiamento.

Li, uma vez, aquela crónica da Marine onde ela conta que uma médica lhe disse "Nós fazemos metade do trabalho. Os outros 50% fazes tu". Receber esta notícia foi como se tivesse atingido esses 50%. Foi como receber uma boa nota num exame, sabendo que a obtive pelo meu esforço e dedicação. A Pi diz que são as correntes de positivismo geradas em torno de mim. Eu cá acho, que no meio do azar que é o cancro, tenho a sorte de ter uma ou duas estrelinhas bem grandes e brilhantes. O que quer que tenha sido, deixou-me radiante. Foi como se me tivessem ligado à ficha e recarregado as energias! :)

Para acabar o dia em beleza (nem parece que estou a falar de um dia passado no IPO), a sala do hospital de dia em que calhei era a sala das camas. Não fosse o IPO um (quase) hospital de luxo, não se faz quimio só em cadeirões, mas em camas também, ah pois! Que bem me soube! Depois de me picarem, montarem o estendal todo para começar a quimio, lá me injetaram um anti-histamínico que ainda não me tinha apercebido que fazia parte da terapêutica. Agora compreendo o sono e a moleza! Adormeci e acordei passado uma hora com a confusão... Tinham derramado um pouco de medicamento de um dos sacos. Foi cortina, foi lençóis, chão, só não caiu em cima de mim, mas também não fazia mal. A enfermeira gritou, literalmente, pelo kit de derramamento e gerou-se um movimento em torno da minha cama que, ao princípio, tive dificuldade em compreender. Mas o perigo está à vista, são medicamentos citostáticos, tóxicos. À enfermeira só lhe faltou tomar banho para eliminar aquelas pinguinhas que lhe caíram no braço. Devo ter assistido aquela movimentação toda só com um olho aberto porque ela comentou, ao colocar novo saco de medicamento, "Tás com uma rabaça!!". E disse-o com a bela pronúncia do Norte.

Posto isto, se acham que neste momento estou a levar a minha tareia quinzenal, desenganem-se. Até vos digo, comi uma bela feijoada à minhota. Eu sei, sou uma gulosa de todo o tamanho. Mas hoje estava destinado ir para o IPO e a minha mãe planeou fazer esta comida bem pesada já que eu não estava por cá. Não tenho enjoos porque estou a fazer dois anti-eméticos, não vá o diabo tecê-las, nem dores de cabeça, nem má disposição. Só uma grande secura da boca (normal), falta de vitalidade/energia e um formigueiro na ponta dos dedos um tanto incomodativo. Mas nem por isso me impediu de espalhar a boa nova! 
E que venham muito mais boas novas para espalhar :D




quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Todos os sonhos do mundo

Pronto, estou livre de IPO por uns bons dias. Por mais condições que o hospital de dia tenha, tornam-se cansativos estes dias de tratamento seguidos, para mim e para quem me acompanha. Começa com a espera na sala de espera. Tenho feito um esforço por não chegar atrasada, como é meu hábito, mas acho que não me devo preocupar muito, uma hora de seca é sempre garantida! 
Depois de estar lá dentro, suporto melhor a passagem do tempo. Falo com as enfermeiras e voluntários, ponho-me a par das notícias (agora que descobri como se muda de canal no plasma) e vou dormitando, o tratamento dá-me imensa sonolência... 

Sono, cansaço, enjoos, secura da boca, perda de paladar, retenção de líquidos, estes são os efeitos mais imediatos. Felizmente, há medicamentos potentes que diminuem a intensidade de alguns destes efeitos. Mas há sempre um mau estar físico e psicológico que permanece e contra isso não há remédio. Hoje é um desses dias, em que me sinto arrebatada por essa má disposição. Consola-me saber que, ao fim de algum tempo, estes eventos desaparecem. Vão estes, vêm outros mas... Um dia de cada vez!

O que queria partilhar hoje não tem nada a ver com efeitos secundários, mas sim com esperança e fé. Quem conhece o IPO do Porto sabe que, depois de ter sido remodelado, salvo erro em 2010, foram espalhados pelos seus corredores quadros com as mais diversas mensagens. Algumas mais parecem retiradas de sites brasileiros, mas hoje encontrei uma bem portuguesa, que me encheu as medidas.



No corredor do edifício central para o Hospital de Dia, um túnel suspenso que se assemelha aqueles que ligam as portas de embarque dos aeroportos diretamente aos aviões, dou de caras com este quadro que me faz parar e refletir. Faz tanto sentido! É exatamente isto que me faz levantar da cama todas as manhãs e ver a vida com bons olhos. É isto que me faz sorrir mesmo em tempos de adversidade. Eu tenho muitos planos, para mim e para os meus, muita coisa boa para fazer nesta vida... 

Citando Fernando Pessoa (ou Álvaro de Campos?), tenho em mim todos os sonhos do mundo e por isso a minha existência não pode terminar aqui!

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

2º Ciclo de quimioterapia

Começou ontem o segundo ciclo.
Todos os ciclos começam com análises, para haver certeza de que estamos aptos para receber a químio.
Cheguei ao IPO às 8 da manhã, já a sala de espera das colheitas estava a rebentar pelas costuras. Questionei-me se não teria sido boa ideia ter trazido a máscara, deve haver imensa "bicharada" a circular por aí, e nos hospitais ainda mais. Fiz análises às 9 e como sei que os resultados demoram cerca de 2h, previ que a consulta (marcada para as 10h) iria atrasar, não fosse eu a nova assistente do Professor Caramba, com estes lenços que agora uso na cabeça, como diz o Luís, um amigo meu.

Dito e feito, a consulta começou às 11h, hora para a qual estava programado o início da químio. A Dra Ilídia recebeu-me com o sorriso habitual, gabou-me o lenço e perguntou-me onde tinha aprendido a coloca-lo daquela maneira. Com as análises na mão, informou-me que estavam óptimas, com todos os valores dentro do normal. Também me disse que não iria ser sempre assim... É que, se o primeiro ciclo durou 21 dias, a partir de agora serão ciclos de 15. Ontem foi o dia 1, hoje é o dia 2. Como faço químio de 3 dias, só vou ter 12 dias para recuperar. A químio causa mielosupressão, ou seja, todas as células sanguíneas, eritrócitos, glóbulos brancos, plaquetas sofrem uma diminuição brutal no seu número, e consequentemente, a sua função fica comprometida. Como esta diminuição só começa a surgir uns dias depois da químio terminar, não há tempo para haver uma recuperação completa. Por outras palavras, quando começar a recuperar levo logo outra "tareia"... Foi a Dra Ilídia que o disse! 
Fiz-lhe várias perguntas, sobre o que posso ou não fazer durante o tempo que estou em casa. Acerca do exercício físico, proibiu-me de ir ao ginásio (estava a ponderar fazer pilates) e disse-me que devo evitar o contacto próximo com outras pessoas (também estava a ponderar ir aprender umas kizombadas com a Lu). Vou ter de optar por umas caminhadas ao ar livre, nada de corridas e exercício físico intenso. Devo ter feito uma cara esquisita, porque logo me disse que o meu corpo me vai mostrar que ela tem razão!
Sobre centros comerciais e cinema, explicou-me que, para além de estarem infestados de micróbios, o grande problema são os filtros de ar onde se alojam verdadeiras colónias de bactérias que, para o comum mortal são indefesas, mas para mim podem representar um perigo. Fiquei com pena, afinal esta é a melhor altura para ver bons filmes no cinema... Mas como um irmão prevenido (ou não) vale por dois, já lá tenho em casa uns pacotes de pipocas marca continente para fazermos uma sessão de home cinema! :)

A Dra Ilídia trocou-me o esquema do primeiro dia de químio. No internamento fiz, no primeiro dia, os 5 fármacos e o anticorpo, por via intravenosa. Só o saco do anticorpo demorou 5 horas e mediam-me a tensão de meia em meia hora, uma seca. Isto porque uma administração muito rápida poderia resultar numa resposta imunitária inesperada e poderia comprometer o resto do dia de tratamento. Desta vez, em hospital de dia, e uma vez que não apresentei qualquer reação ao Rituximab no internamento, trocaram a via intravenosa pela via subcutânea. Uma injeção e já está, menos cinco horas que tenho de cá ficar!
Quanto aos outros fármacos, tenho de os continuar a fazer da mesma forma: o etoposido,  a ciclofosfamida e a doxorrubicina por perfusão lenta (ficam os saquinhos dependurados como se fosse soro), a vincristina e a metilprednisolona são injetados quase diretamente no catéter. 

Já tinha estado numa sala de químio, no IPO de Coimbra. Consiste numa série de cadeirões, dispostos em torno da sala, cada um com um banco ao lado para o acompanhante. No centro da sala estão as enfermeiras e tudo o que elas precisam para pôr o tratamento a correr. Só que no IPO do Porto é tudo mais à frente. Tudo mesmo. Nestas salas de químio, os cadeirões tem a mesma disposição, mas cada um deles está separado do cadeirão seguinte por um vidro fosco onde se encaixa um plasma. Há, portanto, um plasma para cada doente. Aliás, os cadeirões não se limitam a ser simples cadeirões: são daqueles elétricos, mega confortáveis com um comando onde conto 8 botões diferentes. Até a cadeira onde a minha mãe se senta é uma cadeira almofadada, bem mais confortável que um banco. Ainda tenho a opção de puxar o blackout, uma tela que está presa ao tecto. Assim, não tenho de ver a vizinha da frente que acompanha o pai idoso e que está sempre a olhar para mim enquanto pensa "Valha-me Deus, uma rapariga tão nova!"

No IPO do Porto não há processos em papel, é tudo informatizado, o que agiliza a nossa passagem por cá. Quando chego à Dra Ilídia as análises já lá estão no computador e se ela resolver marcar-me um raio x para esse dia, quando me dirijo à radiologia, já lá estão à minha espera. Para não falar dos kiosks, umas maquinetas que estão espalhadas por todo o lado e onde, ao inserir o nosso cartão do IPO, temos à nossa disposição uma secretaria virtual. 

Nos HUC não havia estas comodidades todas, é um hospital antigo, não se pode pedir mais. Mas a simpatia, delicadeza de todos os profissionais que encontrei (todos, todos mesmo), compensa tudo o resto. 

Desde que entrei nestas andanças de hospitais e internamentos, não paguei um único tostão. Nem um cêntimo. Tenho tudo o que preciso, sou tratada como deve ser, sem nenhuma restrição. E ainda encontro médicos, enfermeiros, auxiliares, voluntários, com diversas qualidades das quais destaco a competência, sensibilidade e humanidade. Nunca encontrei, em parte nenhuma, pessoas tão humanas, especialmente no IPO.

Não percebo as queixas dirigidas a este SNS. Eu cá não preciso de privados, usufruo deste serviço, para o qual desconto mensalmente, sentada no meu cadeirão elétrico, numa posição intermédia entre o sentado e o deitado, enquanto assisto ao programa da Fátima. Querem melhor?!








sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Little Princess Trust

Sexta-feira, 18 de Dezembro

No mesmo dia em que fui internada no IPO do Porto para iniciar o primeiro ciclo de quimioterapia, fui também à cabeleireira dar as primeiras tesouradas. Tinham-me ligado nessa manhã do IPO, ofereciam-me um fim de semana num hotel (quase) de luxo, em regime de pensão completa. Pensei duas vezes, mas resolvi aceitar porque nesta vida ninguém dá nada a ninguém e presentes destes não aparecem todos os dias!

Os planos para o fim-de-semana eram mais que muitos e incluíam reencontros com amigos vindos de Lisboa, Coimbra e Barcelona, jantar com os amigos de sempre cá do norte e passeios de bike à beira-mar... Com a mesma facilidade com que combinei mil e uma coisas, cancelei-as. Os amigos vieram na mesma, tiveram de revezar-se para me visitar no hotel, porque os porteiros eram chatos, muito chatos. Mas mantive a marcação na cabeleireira.

A Sarita e a Pi fizeram questão de me acompanhar. Sorriram para mim o tempo todo no espelho e iam fazendo sinais de aprovação enquanto a Leta tratava do assunto. Gostaram tanto do resultado que, no final, confessaram ter vontade de cortar também. 
A Sarita já tem um corte de cabelo curtinho, não dá para cortar mais. Mas a Pi tinha um cabelo bem comprido. Fizemos então uma espécie de pacto. Quando eu rapasse, a Pi cortava bem pequenino. Estava decidido.

No dia em que começou a cair liguei-lhe, em jeito de "Prepara-te que vais ter de cortar já". Como decidi rapar em casa, combinamos que esta semana eu a acompanharia à cabeleireira para cumprir o pacto que firmamos. Pela terceira vez... Assim foi.

Fui surpreendida por um update no pacto. A Pi não ia só cortar o cabelo, resolveu cortar e doa-lo. Infelizmente em Portugal, mais especificamente no IPO, não aceitam doações. Parece que o maior problema se prende com a falta de recursos, que impede que cabeleiras manfaturadas com cabelo natural levantem a auto-estima de pessoas cujas carecas resultam de quimioterapia... Não havendo possibilidade de doar em Portugal, parte-se para o estrangeiro.

No Reino Unido há uma instituição de caridade que assegura que crianças, especialmente crianças carenciadas, possam receber uma cabeleira. Chama-se Little Princess Trust e aceita doações de cabelo de pessoas residentes em outros países para além do Reino Unido.

O processo de doação é mesmo muito simples:
1. Lavar e secar o cabelo antes de o cortar.
2. Atar o cabelo com um elástico à altura que se pretende cortar. 
3. Fazer uma trança e atar a extremidade.
4. Cortar.
5. Colocar a trança dentro de um saco plástico (tipo congelação)
6. Colocar o saco dentro de um envelope almofadado e escrever a morada da instituição.
7. Enviar via CTT.

Há alguns requisitos e limitações:
- O cabelo deve estar bem tratado (sem pontas espigadas)
- Deve ter no mínimo 17 cm (O que são 17 cm em cabelos que passam o meio das costas?!)
- Aceitam cabelo pintado desde que seja numa cor natural
- Não aceitam cabelos Afro
- Não aceitam rastas



Tive o prazer de executar o passo número 4 do processo de doação, ao estilo do vídeo da Sofia Ribeiro só que com menos pompa e circunstância. Mas tinha o coração a transbordar de orgulho e isso basta-me.

Como podem reparar, não é necessário rapar o cabelo para se conseguir doar 17 cm. A Pi ficou tão gira com o seu novo corte! Digam lá se não tenho razão!



Desafio todas as mulheres que lerem este post a ponderarem a doação de cabelo a esta instituição. Para uma cabeleira ficar completa são necessárias 5 doações, ou seja, cabelo de 5 pessoas diferentes. Se têm o cabelo comprido e o querem cortar, não cortem só por cortar, cortem por uma causa. Até recebem um certificado no final!

Saímos do salão com a sensação de dever cumprido. Na segunda feira o cabelo da Sílvia, que parecia uma pequena cobra dentro do saco de plástico, segue para o Reino Unido. Nós ficamos por cá, porque temos mais que fazer, se não púnhamos o telemóvel em modo avião e íamos passear com ele!



Para mais informações acerca da instituição, sigam o link acima e vejam este vídeo, onde encontram mais informações acerca do procedimento de doação.





Em nome das carecas brilhantes de Portugal e desse mundo fora, obrigada Pi por este gesto tão nobre. És grande!!


Confia

O post anterior não era nada do que eu queria escrever. À medida que ia avançando ia recordando alguns episódios e situações e deixei-me levar. Espero que isto não aconteça muitas vezes. Divagar não é bom quando se tem tanto para contar. 
Quero situar as pessoas, explicar como cheguei até aqui, dar a conhecer o processo todo.
Este é o meu 6º post nest blog e ainda não fiz nada do que queria. Tão típico meu. Quero fazer tudo e não faço nada.
A Pi diz que eu sou um laranja no código das cores que caracteriza pessoas. "Pá, esta miúda está sempre a falar na Pi! Pi acima e Pi abaixo". Get used to it. A Pi é mesmo uma peça fundamental na minha vida. Tal como muitas outras que terei oportunidade de citar.

Voltando à questão (estão a ver como me perco?). Tenho um plano para este blog, obviamente! E o plano para hoje passava pelos primeiros sintomas, que me levaram aos HUC e culminaram num internamento forçado! No entanto, assisti a um vídeo divulgado hoje nas redes sociais que me fez alterar os planos. Vou falar do meu cabelo.

Assim que soube que ia fazer quimioterapia comecei a pensar nos efeitos secundários.
É inevitável, toda a gente sabe que é um tratamento duro e pesado. Questionei-me, será que no tratamento que vou fazer o cabelo cai? Foi das primeiras perguntas que fiz à médica hematologista quando ainda andava pelos Hospitais da Universidade. Ela disse que sim mas também disse que, normalmente, cai. Ou seja, pode não cair, certo? Como já sei que fármacos me vão meter para a veia, deixa-me ir espreitar o RCM. O RCM é o Resumo das Características do Medicamento e é um documento que se destina a profissionais de saúde. E eu, armada em quase farmacêutica, vou sempre ver os RCMs! Em 60% dos casos cai. Isto para quase todos os fármacos. Ou seja, se um não o provocar, esse efeito pode perfeitamente ser provocado por outro. Tendo em conta que são 5 fármacos, a probabilidade de não cair é ínfima. Conformei-me. Disse logo que não queria perucas. Para além de ter feedbacks pouco positivos, são muitíssimo caras, e, sinceramente, eu tenho coragem suficiente para sair à rua com um lenço na cabeça, sabendo bem que vou saber o que as pessoas estão a pensar quando os olhares se cruzarem. 

Posto isto, decidi que iria optar, inicialmente, por um corte à rapaz, uma coisa alternativa e moderna. E depois, quando o cabelo começasse a cair, rapava. Era bom para toda a gente: para mim porque me ia habituando a minha sensível auto-estima às mudanças, para os outros porque os poupava ao choque do cabelo rapado. 
Neste ponto, pensei especialmente nos meus avós. Apercebi-me de que as figuras maiores, os pilares da família, em especial o meu avô paterno e a minha avó materna, pessoas "rijas", de valores e convicções fortes, estavam frágeis. Senti que o peso do diagnóstico se abateu sobre eles. E eles, que já contam com uma idade avançada, cederam. Por isso, tinha de os poupar ao máximo. Assim foi.


Acho que o cabelo curto me fica bem. Vou ponderar manter um corte curto quando o cabelo voltar a crescer.
Esta fotografia foi tirada na noite de passagem de ano. Foi a última selfie do ano e a última selfie com o corte que tanto gostei de fazer (créditos à Leta, a minha cabeleireira, que prontamente se ofereceu para me mudar o visual quando tudo isto surgiu).

No dia 1 de Janeiro o cabelo começou a cair. Assim do nada, no primeiro dia do ano, sem aviso prévio. Achei que estava preparada... Não estava. Meia abananada com aquele acontecimento peguei no carro e fui para o Porto, tinha combinado encontrar-me lá com o Pedro, o meu namorado. Não me lembro de ter lá chegado, de tão absorta que ia nos meus pensamentos. Chorei. E depois cheguei à foz, vi o mar e tudo acalmou. Era suposto ser um dia feliz, afinal era o primeiro dia do ano e eu tinha acordado com uma vontade tremenda de aproveitar bem o dia (que estava péssimo a nível meteorológico)! 
O cabelo continuou a cair nos dias seguintes. Bastou-me uma boa noite de sono para me recompor e passar a ver as coisas com naturalidade. Já sabia que ia acontecer e não é nada de outro mundo. É só cabelo, e a queda é um efeito secundário como outro qualquer! Combinei com o meu irmão, domingo ao fim da tarde vamos rapar isto. Assim foi (mais uma vez).

Chego à casa de banho e tenho a máquina à minha espera, bem como um lençol para pôr à volta do meu pescoço e um banquinho para me sentar. Depois de tudo pronto ouço o trabalhar da máquina de barbear do meu irmão, cujo pente era especial para cabelos. Escolhemos a altura do pente e sinto a máquina junto ao meu ouvido. Digo ao meu irmão para ter cuidado com a orelha, ao que ele me responde "Claro Gui, a orelha não cresce de novo!"

Correu tudo lindamente até ao momento em que me rapou, por completo, o lado esquerdo da cabeça, que já antes estava mais curto. Parou a máquina e disse-me "Pareces o Skrillex!". Para quem não sabe, o Skrillex é um DJ. "Posso mandar um snap?", disse-lhe que sim. Sorri para a foto, um sorriso meio amarelo, e já está! 

Enquanto manda e não manda, a minha mãe, que assistia a tudo, apodera-se da máquina e recomeça o que ficou a meio. Como duas crianças, ela e o meu irmão entram numa disputa pelo comando da situação, em que o meu irmão vence facilmente. 
Começo a ter um vislumbre do resultado final e vou-me abaixo. Fico com os olhos marejados de lágrimas e não consigo evitar que caiam... Olho para o meu irmão e vejo que está a chorar como eu, mas não para de cortar. Dá-me um beijo na face e continua. É para cortar, é para cortar. 
A minha mãe mantém-se firme. Gostava de saber o segredo dela, onde vai buscar tanta força para se manter assim. Dizem que sou corajosa... A minha mãe é que é, um poço de coragem, boa disposição e boas energias!

Acabou, apara aqui e ali e estou pronta. Há cabelos por todo o lado. Procuro uma madeixa intacta para guardar mas estão demasiado espalhados, não há hipótese. Para além disso a minha mãe já tinha começado a limpar, por isso esqueci o assunto. Vou até ao meu quarto e tenho dificuldade em olhar para as várias fotografias que tenho na parede. Volto para a casa de banho e enfio-me na banheira. Chorei tudo o que tinha a chorar e deixei as mágoas serem levadas com a água que corria e me enrugava a pele. Prometi a mim mesma que não iria chorar mais por um cabelo que vai voltar a crescer, muito provavelmente mais forte e saudável do que aquele que tinha. Só queria que nascesse liso, seria uma boa recompensa!

Não gosto de me ver de cabelo rapado, mas, entretanto, habituei-me. Não saio à rua sem um lenço ou gorro, está frio e não me posso constipar. Para além de que não quero que se veja. Só mostro a quem me pede, não tenho orgulho no meu corte. Tenho mais nos lenços e nas diferentes formas de os amarrar. A minha mãe descobriu um vídeo genial que ensina a fazer 10 "amarrações" em 5 minutos. Não preciso de ver mais nada, está aqui tudo o que é preciso.


Hoje fui surpreendida pelo vídeo da Sofia Ribeiro. Mais uma vez, foi a Pi que me mandou, e depois o Pedro também. Adorei. Revi-me do princípio ao fim, principalmente no fim. Chorei com ela de novo, mas foi só desta vez! Admiro a coragem dela para partilhar com o país, o mundo inteiro, um momento tão íntimo como é aquele. Ficamos ali, completamente desprotegidos e impotentes, a ver desaparecer aquilo que também faz de nós mulheres, aquilo que nos torna tão femininas, diferentes e especiais e altera completamente a nossa figura, a nossa imagem. Foi o momento mais duro até agora. Não há dor, enjoo, efeito secundário nenhum que supere a dor psicológica que é ver o nosso cabelo desaparecer, pelo motivo que é.

A Sofia, sendo uma figura pública, dispõem de muitos mais meios e recursos. Usa aquilo que está ao alcance dela, tal como eu. 
No final, a lição é a mesma para todos. 
Confiar. 
Vai tudo correr bem.

Natal quentinho quentinho!

Ufa! Finalmente terminei de responder aos inúmeros comentários e mensagens que me foram deixando ao longo do dia. Sei que não vai ser sempre assim, tenho noção que esta afluência se deve ao impacto provocado pela notícia, pela natureza dela.

Funciona mais ou menos como as visitas que recebo. Depois do meu primeiro ciclo de quimio esta casa entrou numa roda viva. Toca a campainha, toca o telefone, o cão ladra, a minha mãe pergunta lá de dentro se alguém abriu a porta, o meu irmão confirma e recebe as pessoas ao mesmo tempo que atende o telefone. O Charlie fica doido porque adora ter convidados (especialmente se os convidados ficarem para o lanche) e eu, sabendo que precisava de repousar - tinha feito uma punção lombar antes de ter alta no IPO - não conseguia recusar as visitas.
A Pi diz que eu gosto de viver no limite. Eu soltei uma gargalhada quando ela me disse isto mas, mais uma vez, tem a sua razão. Não devia mas deixei que, quem quisesse, me visitasse nessa altura mais crítica. A mim fez-me bem ter pessoas novas e diferentes a toda a hora, já bastava não poder receber quase visitas nenhumas no internamento; Por outro lado, sinto que há necessidade de me verem, em carne e osso, para acreditarem que estou realmente bem.

Apesar das vantagens que as visitas me poderiam trazer, num desses dias com mil visitas agendadas, fui obrigada pela Joana a abrandar o ritmo. Não sei se foi a Joana médica ou a Joana amiga que falou... Qualquer que tenha sido a Joana (provavelmente foram ambas), a necessidade de repouso absoluto ficou bem clara. Tinha passado uma noite péssima, com dores, ansiedade e pensamentos menos positivos, que surgem no desespero de querer dormir e não conseguir...
Logo pela manhã a Joana veio cá a casa ver-me. Mediu-me a tensão, auscultou-me, fez-me perguntas e conversamos um bocadinho. A minha amiga é daquelas pessoas que tem a capacidade de nos acalmar só pelo seu tom de voz, estão a ver? Passado um bocadinho voltou a medir-me a tensão, já tinha baixado. E nem foi preciso tomar nenhum ansiolítico!
Descansei durante a tarde, descanso esse que só foi possível ao colocar o telemóvel em modo avião. Faz de conta que fui viajar!! :)

Ao fim da tarde estava bem melhor e ainda bem porque era noite de Natal. Arrastei-me até à sala de jantar e consegui, pela primeira vez desde que tinha vindo do IPO, fazer uma refeição completa à mesa.
No dia seguinte estava ainda melhor. Tinha dormido como um anjo e acordei com uma disposição fantástica. Para além disso tinha recuperado o paladar a tempo de saborear os doces tão típicos desta altura do ano. Ainda por cima estava um sol delicioso!!

Foi um Natal bem quentinho, principalmente pela ternura que me chegou de todos os lados. Foi um Natal especial e diferente. O próximo Natal vai ser um Natal como foram todos os outros ao longo destes anos. Com a diferença de que vou olhar para trás e vou recordar este dia com a satisfação de ter vencido uma batalha nesta guerra que é o cancro.

Não é a quimio, é o cancro.