Mostrar mensagens com a etiqueta Cabelo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cabelo. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Little Princess Trust

Sexta-feira, 18 de Dezembro

No mesmo dia em que fui internada no IPO do Porto para iniciar o primeiro ciclo de quimioterapia, fui também à cabeleireira dar as primeiras tesouradas. Tinham-me ligado nessa manhã do IPO, ofereciam-me um fim de semana num hotel (quase) de luxo, em regime de pensão completa. Pensei duas vezes, mas resolvi aceitar porque nesta vida ninguém dá nada a ninguém e presentes destes não aparecem todos os dias!

Os planos para o fim-de-semana eram mais que muitos e incluíam reencontros com amigos vindos de Lisboa, Coimbra e Barcelona, jantar com os amigos de sempre cá do norte e passeios de bike à beira-mar... Com a mesma facilidade com que combinei mil e uma coisas, cancelei-as. Os amigos vieram na mesma, tiveram de revezar-se para me visitar no hotel, porque os porteiros eram chatos, muito chatos. Mas mantive a marcação na cabeleireira.

A Sarita e a Pi fizeram questão de me acompanhar. Sorriram para mim o tempo todo no espelho e iam fazendo sinais de aprovação enquanto a Leta tratava do assunto. Gostaram tanto do resultado que, no final, confessaram ter vontade de cortar também. 
A Sarita já tem um corte de cabelo curtinho, não dá para cortar mais. Mas a Pi tinha um cabelo bem comprido. Fizemos então uma espécie de pacto. Quando eu rapasse, a Pi cortava bem pequenino. Estava decidido.

No dia em que começou a cair liguei-lhe, em jeito de "Prepara-te que vais ter de cortar já". Como decidi rapar em casa, combinamos que esta semana eu a acompanharia à cabeleireira para cumprir o pacto que firmamos. Pela terceira vez... Assim foi.

Fui surpreendida por um update no pacto. A Pi não ia só cortar o cabelo, resolveu cortar e doa-lo. Infelizmente em Portugal, mais especificamente no IPO, não aceitam doações. Parece que o maior problema se prende com a falta de recursos, que impede que cabeleiras manfaturadas com cabelo natural levantem a auto-estima de pessoas cujas carecas resultam de quimioterapia... Não havendo possibilidade de doar em Portugal, parte-se para o estrangeiro.

No Reino Unido há uma instituição de caridade que assegura que crianças, especialmente crianças carenciadas, possam receber uma cabeleira. Chama-se Little Princess Trust e aceita doações de cabelo de pessoas residentes em outros países para além do Reino Unido.

O processo de doação é mesmo muito simples:
1. Lavar e secar o cabelo antes de o cortar.
2. Atar o cabelo com um elástico à altura que se pretende cortar. 
3. Fazer uma trança e atar a extremidade.
4. Cortar.
5. Colocar a trança dentro de um saco plástico (tipo congelação)
6. Colocar o saco dentro de um envelope almofadado e escrever a morada da instituição.
7. Enviar via CTT.

Há alguns requisitos e limitações:
- O cabelo deve estar bem tratado (sem pontas espigadas)
- Deve ter no mínimo 17 cm (O que são 17 cm em cabelos que passam o meio das costas?!)
- Aceitam cabelo pintado desde que seja numa cor natural
- Não aceitam cabelos Afro
- Não aceitam rastas



Tive o prazer de executar o passo número 4 do processo de doação, ao estilo do vídeo da Sofia Ribeiro só que com menos pompa e circunstância. Mas tinha o coração a transbordar de orgulho e isso basta-me.

Como podem reparar, não é necessário rapar o cabelo para se conseguir doar 17 cm. A Pi ficou tão gira com o seu novo corte! Digam lá se não tenho razão!



Desafio todas as mulheres que lerem este post a ponderarem a doação de cabelo a esta instituição. Para uma cabeleira ficar completa são necessárias 5 doações, ou seja, cabelo de 5 pessoas diferentes. Se têm o cabelo comprido e o querem cortar, não cortem só por cortar, cortem por uma causa. Até recebem um certificado no final!

Saímos do salão com a sensação de dever cumprido. Na segunda feira o cabelo da Sílvia, que parecia uma pequena cobra dentro do saco de plástico, segue para o Reino Unido. Nós ficamos por cá, porque temos mais que fazer, se não púnhamos o telemóvel em modo avião e íamos passear com ele!



Para mais informações acerca da instituição, sigam o link acima e vejam este vídeo, onde encontram mais informações acerca do procedimento de doação.





Em nome das carecas brilhantes de Portugal e desse mundo fora, obrigada Pi por este gesto tão nobre. És grande!!


Confia

O post anterior não era nada do que eu queria escrever. À medida que ia avançando ia recordando alguns episódios e situações e deixei-me levar. Espero que isto não aconteça muitas vezes. Divagar não é bom quando se tem tanto para contar. 
Quero situar as pessoas, explicar como cheguei até aqui, dar a conhecer o processo todo.
Este é o meu 6º post nest blog e ainda não fiz nada do que queria. Tão típico meu. Quero fazer tudo e não faço nada.
A Pi diz que eu sou um laranja no código das cores que caracteriza pessoas. "Pá, esta miúda está sempre a falar na Pi! Pi acima e Pi abaixo". Get used to it. A Pi é mesmo uma peça fundamental na minha vida. Tal como muitas outras que terei oportunidade de citar.

Voltando à questão (estão a ver como me perco?). Tenho um plano para este blog, obviamente! E o plano para hoje passava pelos primeiros sintomas, que me levaram aos HUC e culminaram num internamento forçado! No entanto, assisti a um vídeo divulgado hoje nas redes sociais que me fez alterar os planos. Vou falar do meu cabelo.

Assim que soube que ia fazer quimioterapia comecei a pensar nos efeitos secundários.
É inevitável, toda a gente sabe que é um tratamento duro e pesado. Questionei-me, será que no tratamento que vou fazer o cabelo cai? Foi das primeiras perguntas que fiz à médica hematologista quando ainda andava pelos Hospitais da Universidade. Ela disse que sim mas também disse que, normalmente, cai. Ou seja, pode não cair, certo? Como já sei que fármacos me vão meter para a veia, deixa-me ir espreitar o RCM. O RCM é o Resumo das Características do Medicamento e é um documento que se destina a profissionais de saúde. E eu, armada em quase farmacêutica, vou sempre ver os RCMs! Em 60% dos casos cai. Isto para quase todos os fármacos. Ou seja, se um não o provocar, esse efeito pode perfeitamente ser provocado por outro. Tendo em conta que são 5 fármacos, a probabilidade de não cair é ínfima. Conformei-me. Disse logo que não queria perucas. Para além de ter feedbacks pouco positivos, são muitíssimo caras, e, sinceramente, eu tenho coragem suficiente para sair à rua com um lenço na cabeça, sabendo bem que vou saber o que as pessoas estão a pensar quando os olhares se cruzarem. 

Posto isto, decidi que iria optar, inicialmente, por um corte à rapaz, uma coisa alternativa e moderna. E depois, quando o cabelo começasse a cair, rapava. Era bom para toda a gente: para mim porque me ia habituando a minha sensível auto-estima às mudanças, para os outros porque os poupava ao choque do cabelo rapado. 
Neste ponto, pensei especialmente nos meus avós. Apercebi-me de que as figuras maiores, os pilares da família, em especial o meu avô paterno e a minha avó materna, pessoas "rijas", de valores e convicções fortes, estavam frágeis. Senti que o peso do diagnóstico se abateu sobre eles. E eles, que já contam com uma idade avançada, cederam. Por isso, tinha de os poupar ao máximo. Assim foi.


Acho que o cabelo curto me fica bem. Vou ponderar manter um corte curto quando o cabelo voltar a crescer.
Esta fotografia foi tirada na noite de passagem de ano. Foi a última selfie do ano e a última selfie com o corte que tanto gostei de fazer (créditos à Leta, a minha cabeleireira, que prontamente se ofereceu para me mudar o visual quando tudo isto surgiu).

No dia 1 de Janeiro o cabelo começou a cair. Assim do nada, no primeiro dia do ano, sem aviso prévio. Achei que estava preparada... Não estava. Meia abananada com aquele acontecimento peguei no carro e fui para o Porto, tinha combinado encontrar-me lá com o Pedro, o meu namorado. Não me lembro de ter lá chegado, de tão absorta que ia nos meus pensamentos. Chorei. E depois cheguei à foz, vi o mar e tudo acalmou. Era suposto ser um dia feliz, afinal era o primeiro dia do ano e eu tinha acordado com uma vontade tremenda de aproveitar bem o dia (que estava péssimo a nível meteorológico)! 
O cabelo continuou a cair nos dias seguintes. Bastou-me uma boa noite de sono para me recompor e passar a ver as coisas com naturalidade. Já sabia que ia acontecer e não é nada de outro mundo. É só cabelo, e a queda é um efeito secundário como outro qualquer! Combinei com o meu irmão, domingo ao fim da tarde vamos rapar isto. Assim foi (mais uma vez).

Chego à casa de banho e tenho a máquina à minha espera, bem como um lençol para pôr à volta do meu pescoço e um banquinho para me sentar. Depois de tudo pronto ouço o trabalhar da máquina de barbear do meu irmão, cujo pente era especial para cabelos. Escolhemos a altura do pente e sinto a máquina junto ao meu ouvido. Digo ao meu irmão para ter cuidado com a orelha, ao que ele me responde "Claro Gui, a orelha não cresce de novo!"

Correu tudo lindamente até ao momento em que me rapou, por completo, o lado esquerdo da cabeça, que já antes estava mais curto. Parou a máquina e disse-me "Pareces o Skrillex!". Para quem não sabe, o Skrillex é um DJ. "Posso mandar um snap?", disse-lhe que sim. Sorri para a foto, um sorriso meio amarelo, e já está! 

Enquanto manda e não manda, a minha mãe, que assistia a tudo, apodera-se da máquina e recomeça o que ficou a meio. Como duas crianças, ela e o meu irmão entram numa disputa pelo comando da situação, em que o meu irmão vence facilmente. 
Começo a ter um vislumbre do resultado final e vou-me abaixo. Fico com os olhos marejados de lágrimas e não consigo evitar que caiam... Olho para o meu irmão e vejo que está a chorar como eu, mas não para de cortar. Dá-me um beijo na face e continua. É para cortar, é para cortar. 
A minha mãe mantém-se firme. Gostava de saber o segredo dela, onde vai buscar tanta força para se manter assim. Dizem que sou corajosa... A minha mãe é que é, um poço de coragem, boa disposição e boas energias!

Acabou, apara aqui e ali e estou pronta. Há cabelos por todo o lado. Procuro uma madeixa intacta para guardar mas estão demasiado espalhados, não há hipótese. Para além disso a minha mãe já tinha começado a limpar, por isso esqueci o assunto. Vou até ao meu quarto e tenho dificuldade em olhar para as várias fotografias que tenho na parede. Volto para a casa de banho e enfio-me na banheira. Chorei tudo o que tinha a chorar e deixei as mágoas serem levadas com a água que corria e me enrugava a pele. Prometi a mim mesma que não iria chorar mais por um cabelo que vai voltar a crescer, muito provavelmente mais forte e saudável do que aquele que tinha. Só queria que nascesse liso, seria uma boa recompensa!

Não gosto de me ver de cabelo rapado, mas, entretanto, habituei-me. Não saio à rua sem um lenço ou gorro, está frio e não me posso constipar. Para além de que não quero que se veja. Só mostro a quem me pede, não tenho orgulho no meu corte. Tenho mais nos lenços e nas diferentes formas de os amarrar. A minha mãe descobriu um vídeo genial que ensina a fazer 10 "amarrações" em 5 minutos. Não preciso de ver mais nada, está aqui tudo o que é preciso.


Hoje fui surpreendida pelo vídeo da Sofia Ribeiro. Mais uma vez, foi a Pi que me mandou, e depois o Pedro também. Adorei. Revi-me do princípio ao fim, principalmente no fim. Chorei com ela de novo, mas foi só desta vez! Admiro a coragem dela para partilhar com o país, o mundo inteiro, um momento tão íntimo como é aquele. Ficamos ali, completamente desprotegidos e impotentes, a ver desaparecer aquilo que também faz de nós mulheres, aquilo que nos torna tão femininas, diferentes e especiais e altera completamente a nossa figura, a nossa imagem. Foi o momento mais duro até agora. Não há dor, enjoo, efeito secundário nenhum que supere a dor psicológica que é ver o nosso cabelo desaparecer, pelo motivo que é.

A Sofia, sendo uma figura pública, dispõem de muitos mais meios e recursos. Usa aquilo que está ao alcance dela, tal como eu. 
No final, a lição é a mesma para todos. 
Confiar. 
Vai tudo correr bem.