Sexta-feira, 18 de Dezembro
No mesmo dia em que fui internada no IPO do Porto para iniciar o primeiro ciclo de quimioterapia, fui também à cabeleireira dar as primeiras tesouradas. Tinham-me ligado nessa manhã do IPO, ofereciam-me um fim de semana num hotel (quase) de luxo, em regime de pensão completa. Pensei duas vezes, mas resolvi aceitar porque nesta vida ninguém dá nada a ninguém e presentes destes não aparecem todos os dias!
Os planos para o fim-de-semana eram mais que muitos e incluíam reencontros com amigos vindos de Lisboa, Coimbra e Barcelona, jantar com os amigos de sempre cá do norte e passeios de bike à beira-mar... Com a mesma facilidade com que combinei mil e uma coisas, cancelei-as. Os amigos vieram na mesma, tiveram de revezar-se para me visitar no hotel, porque os porteiros eram chatos, muito chatos. Mas mantive a marcação na cabeleireira.
A Sarita e a Pi fizeram questão de me acompanhar. Sorriram para mim o tempo todo no espelho e iam fazendo sinais de aprovação enquanto a Leta tratava do assunto. Gostaram tanto do resultado que, no final, confessaram ter vontade de cortar também.
A Sarita já tem um corte de cabelo curtinho, não dá para cortar mais. Mas a Pi tinha um cabelo bem comprido. Fizemos então uma espécie de pacto. Quando eu rapasse, a Pi cortava bem pequenino. Estava decidido.
No dia em que começou a cair liguei-lhe, em jeito de "Prepara-te que vais ter de cortar já". Como decidi rapar em casa, combinamos que esta semana eu a acompanharia à cabeleireira para cumprir o pacto que firmamos. Pela terceira vez... Assim foi.
Fui surpreendida por um update no pacto. A Pi não ia só cortar o cabelo, resolveu cortar e doa-lo. Infelizmente em Portugal, mais especificamente no IPO, não aceitam doações. Parece que o maior problema se prende com a falta de recursos, que impede que cabeleiras manfaturadas com cabelo natural levantem a auto-estima de pessoas cujas carecas resultam de quimioterapia... Não havendo possibilidade de doar em Portugal, parte-se para o estrangeiro.
No Reino Unido há uma instituição de caridade que assegura que crianças, especialmente crianças carenciadas, possam receber uma cabeleira. Chama-se Little Princess Trust e aceita doações de cabelo de pessoas residentes em outros países para além do Reino Unido.
O processo de doação é mesmo muito simples:
1. Lavar e secar o cabelo antes de o cortar.
2. Atar o cabelo com um elástico à altura que se pretende cortar.
3. Fazer uma trança e atar a extremidade.
4. Cortar.
5. Colocar a trança dentro de um saco plástico (tipo congelação)
6. Colocar o saco dentro de um envelope almofadado e escrever a morada da instituição.
7. Enviar via CTT.
Há alguns requisitos e limitações:
- O cabelo deve estar bem tratado (sem pontas espigadas)
- Deve ter no mínimo 17 cm (O que são 17 cm em cabelos que passam o meio das costas?!)
- Aceitam cabelo pintado desde que seja numa cor natural
- Não aceitam cabelos Afro
- Não aceitam rastas
Tive o prazer de executar o passo número 4 do processo de doação, ao estilo do vídeo da Sofia Ribeiro só que com menos pompa e circunstância. Mas tinha o coração a transbordar de orgulho e isso basta-me.
Como podem reparar, não é necessário rapar o cabelo para se conseguir doar 17 cm. A Pi ficou tão gira com o seu novo corte! Digam lá se não tenho razão!
Desafio todas as mulheres que lerem este post a ponderarem a doação de cabelo a esta instituição. Para uma cabeleira ficar completa são necessárias 5 doações, ou seja, cabelo de 5 pessoas diferentes. Se têm o cabelo comprido e o querem cortar, não cortem só por cortar, cortem por uma causa. Até recebem um certificado no final!
Saímos do salão com a sensação de dever cumprido. Na segunda feira o cabelo da Sílvia, que parecia uma pequena cobra dentro do saco de plástico, segue para o Reino Unido. Nós ficamos por cá, porque temos mais que fazer, se não púnhamos o telemóvel em modo avião e íamos passear com ele!
Para mais informações acerca da instituição, sigam o link acima e vejam este vídeo, onde encontram mais informações acerca do procedimento de doação.
Em nome das carecas brilhantes de Portugal e desse mundo fora, obrigada Pi por este gesto tão nobre. És grande!!







