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terça-feira, 7 de junho de 2016

Dar cabo do Barrabás - Parte 2

Começou a radioterapia.
Depois das voltas e reviravoltas que esta história deu, começou finalmente a segunda parte do tratamento. Já tinha tido uma consulta de radio-oncologia, logo depois de ter terminado a quimioterapia. Nessa consulta fiquei a conhecer a minha médica da radio, também ela, à semelhança da Dra Ilídia, uma querida. Explicou-me em que consistia o tratamento e falou-me dos efeitos secundários. 

A curto prazo podem surgir alguns efeitos localizados, resultantes da agressão dos tecidos irradiados. Tendo em conta que o alvo é a zona torácica, pode surgir inflamação do esófago o que, por sua vez, pode provocar dor, dificuldade e desconforto ao ingerir alimentos, bem como náuseas, e em casos extremos, vómitos. Outro efeito frequente da radioterapia (seja em que local for) são as queimaduras na pele... E para isso só há um remédio, proteger e hidratar. Isto significa duas coisas: a primeira é que posso esquecer os banhos de sol este verão e a segunda é que vou gastar uns bons euros em Biafine, Nívea e protetor solar 50+. É que para além da queimadura que, eventualmente, possa acontecer, há uma pele sensibilizada pela quimioterapia... 
Cansaço, diminuição dos glóbulos brancos, são outras reações que podem ocorrer e que desaparecem com a cessação do tratamento.

A longo prazo é que a porca torce o rabo. Por mais avançada que esteja a Medicina, por muito que calculem, ao milímetro, o local de incidência da radiação, não há por onde fugir: as radiações atingem não só os tumores mas também os tecidos circundantes. Quer isto dizer que, no meu caso, os pulmões, coração, tiróide, mama, tubo digestivo e pele são também afetados pelas radiações. De uma forma muito simplista, a radiação provoca alterações nas células que, um dia mais tarde, podem transformar-se em... células malignas! A longo prazo, o risco de aparecimento de outro cancro nestes tecidos é maior para mim do que para um indivíduo saudável. Certamente, o benefício da radioterapia compensa este risco, caso contrário não seria uma opção. E, apesar de tudo, não deixa de ser um risco... Pode acontecer ou não!

Depois de uma longa conversa com a Dra Carla, fui encaminhada para a sala de tac, para fazer a marcação da área a ser irradiada. Como a radioterapia é um tratamento de várias sessões, opta-se por uma marcação permanente para que, todos os dias, a radiação incida no mesmo local. Ou seja, fizeram-me umas mini tatuagens, 4 pontinhos, 2 na zona axilar e outros 2 junto ao esterno. Quase não se notam e por isso não me aflige que sejam para toda a vida!

Depois desta consulta passaram-se muitas semanas e ontem, 6/6/16, lá voltei ao IPO para ter consulta e tratamento. Na consulta fiquei a saber todos os cuidados a ter nesta fase, o que posso ou não fazer (nada de piscinas, mesmo que esteja um calor abrasador e que essa pareça a única solução!), e o mais importante de tudo, o número de sessões. Vão ser 20, 5 dias por semana, à excepção da semana do S. João, porque vão todos para o bailarico no dia 23! Sendo assim, até dia 4 de Julho vou ter de ir ao IPO quase todos os dias... 
Para compensar esta canseira, os tratamentos são muito rápidos. O tempo de espera é curto, ao fim de cerca de 10 minutos entramos para o vestiário e de lá passamos para a sala de tratamento. À nossa espera estão sempre duas terapeutas cuja função é deitar-me na maca e colocar o meu corpo na posição certa, com ajuda de um molde onde encaixa a cabeça e braços. Este alinhamento demora tanto tempo como o próprio tratamento. Empurram de um lado, puxam de outro e quando finalmente estão os 4 pontos acertados, saem da sala e ficam a ver-me por um ecrã enquanto o aparelho da radiação anda à minha volta. 

Não há nada como ver com os nossos próprios olhos e este é o acelerador linear, o aparelho que emite a radiação.

Duas moedinhas, duas voltinhas e estou pronta para me ir embora! 

O tratamento é totalmente indolor, não causa qualquer tipo de reação de calor ou de vibração. Ah, e também não se fica radioativo como na PET, por isso posso estar com grávidas e crianças à vontade, não represento nenhum risco para os outros. E ainda bem,
porque os meus primeiros "sobrinhos" estão a caminho! :D

Ao fim de meia hora já estou fora do IPO e faço aquela contagem decrescente... Já só faltam 18 sessões!

Para já não sinto qualquer efeito do tratamento, mas também é muito cedo para isso, penso. Daqui a uma semana tenho consulta, para a médica ir acompanhando o processo. Até lá vou estudando (os exames na faculdade estão aí à porta) e vou aproveitar o verão que, finalmente, chegou! 




terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Step by Step

Há muito que digo que sinto falta de fazer exercício físico. Sinto falta das corridas e natação, essencialmente, mas também das aulas de ginásio mais intensas como o Zumba (gosto tanto de dançar!), o Jump, o cycling... Na verdade, o que sinto falta é da sensação de bem-estar que o exercício físico me proporciona. 

Ontem fui, de certa forma, "desafiada" pela minha amiga Ana e pela Pi para voltar a exercitar o corpo. Confrontaram-me ambas com uma foto da Sofia Ribeiro no ginásio, a fazer suar a careca, literalmente. Pensei cá com os meus botões que em vez de me andar a queixar da falta que o exercício me faz deveria, de um vez por todas, exercitar-me. 

A Dra Ilídia aconselhou-me a evitar os ginásios, diz que é um ambiente propício para contrair infeções, o que não convinha nada. Eu cá não acho que tenha assim tanto problema, depende do ginásio... Mas acatei a recomendação dela. No entanto, não é por isso que tenho de levar uma vida sedentária, certo? Está frio, muito frio, mas o sol é tão quentinho que não dá para lhe resistir! Por isso hoje saltei do sofá, vesti um fato de treino, escolhi um cachecol e enfiei um gorro, calcei as minhas "tilhas"de corrida e saí para a rua. Aqui em Felgueiras os espaços verdes não abundam e para ir até à alameda de Santa Quitéria (local muito agradável para praticar desporto) tinha de pegar no carro... Acabei por optar pela pista de atletismo da zona desportiva: tem um bom piso e fica perto de casa!


"Quanto mais cansado te sentires, menos ativo ficas, o teu corpo fica mais fraco, os movimentos tornam-se difíceis e... cansativos. É um círculo vicioso."

A fadiga é um dos principais efeitos secundários da quimioterapia. Eu, por exemplo, nunca senti tanta necessidade de dormir como sinto agora. Levantar-me da cama demora séculos e, grande parte das vezes, acordo cansada. Mas, aparentemente, a solução está em contrariar esta tendência e manter alguma atividade! Os efeitos não são só físicos, há uma componente psicológica fundamental em todo este processo... E o exercício físico é uma terapia de primeira linha!

A Sofia fez 3Km. Eu não lhe fiquei atrás e fiz 3,25Km em 37 minutos. Nada mau!

Vou dar luta ao sofá, à preguiça, à inércia corporal.

Declaro aberta a época das caminhadas! 



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

É carnaval, ninguém leva a mal!

Antes de mais, preciso de confirmar que há, de facto, luz ao fundo do túnel. Na consulta de rotina que tive na segunda, fui vista por uma substituta da Dra Ilídia, uma vez que esta se encontrava doente. Já não me lembro do nome da médica, mas era igualmente simpática e querida. Mostrou-me o 1º e último raio x que realizei... Há uma diferença abismal, creio que o linfoma de 12 cm deve ter sido reduzido a metade, só com 2 ciclos de quimioterapia. Ficamos radiantes, eu e a Sarita, que me acompanhou naquela consulta. Já suspeitava, mas entre suspeitar e visualizar vai uma grande diferença. É que no princípio, para além de sentir os efeitos daquela quimio pesada sentia também dores, provocadas pela compressão do linfoma no pulmão e vértebras, bem como umas palpitações que me impediam de dormir descansada... Agora já só sinto os efeitos da quimioterapia, que, entretanto, também se tornou mais leve. Continuo sem dormir uma noite seguida mas isso é por causa das variações bruscas de temperatura corporal que sinto devido às alterações hormonais que a quimio causa. Adiante...

Tive pena de não ter encontrado a Dra Ilídia. Sei que ela iria dar uma grande gargalhada quando me visse com uma peruca roxa! A ideia foi da Pi, comprou perucas para mim, para ela e para a Sarita e lá fomos nós naquela bonita figura para o IPO. Foi o meu carnaval, e foi um carnaval especial. Não me mascarei a rigor, não tive jantar com os amigos e não fui sair à noite. Mas arrancamos sorrisos naquelas salas e corredores. Ainda que fugazes, foi uma boa recompensa! 



Depois da consulta com a médica fui à tão esperada consulta de nutrição. A nutricionista, tão jovem quanto eu, procurou saber quais as minhas dúvidas em relação à alimentação. Quando lhe disse que tinha ganho algum peso (penso que devido ao corticóide que faço) focou-se completamente nesse aspeto. Foi um consulta de nutrição, não de nutrição oncológica. Não acrescentou nada de novo aquilo que eu já sabia e já tinha lido. Aliás, no que diz respeito a dicas para contrariar náuseas, não disse mesmo nada de jeito. Proibiu-me as framboesas (bolas!!) e as saladas, mesmo que devidamente "amukinadas"... Um dia destes faço um post sobre dicas de alimentação. Há imensas coisas que, por serem tão naturais e banais no dia a dia, nem nos passa pela cabeça que possam constituir um perigo!

Depois desta consulta e como só tinha hospital de dia às 15.30, fomos todas almoçar. A Bé só saiu às 14h do S. João e, com uma hora de almoço apertada, não pudemos ir muito longe. Ficamos por ali mesmo e encontramos uma casa de hamburguers artesanais (ai se a nutricionista sabia...). Não eram nada de especial. Especial foi a companhia. Somos amigas há muitos anos e momentos assim, só das quatro, são cada vez mais escassos e, por isso, são momentos únicos!



No final, a Pi e a Bé foram à vida delas e eu e a Sarita voltamos ao IPO, ao hospital de dia. Nunca esperei tanto tempo até ser chamada, foram quase 2 horas! No entanto, nunca o tempo passou tão rápido como desta vez... Não há melhor rede social que uma sala de espera! Pela primeira vez meti-me à conversa com os meus companheiros de luta. 

Conheci a Paula, uma senhora da idade da minha mãe, um pouco mais nova talvez. A Paula contou-me o percurso todo dela... E que percurso! Já conta com 31 sessões de quimioterapia, está toda metastisada. Disse-me que não tem um cancro, tem vários. Tantos que nem sabe quantos são. Esteve tão mal que lhe ofereceram um quarto privativo nos cuidados paliativos, para lhe poderem proporcionar uma morte mais "digna". Milagrosamente começou a melhorar e neste momento faz quimio atrás de quimio para se manter viva. O que a faz lutar é o sorriso da filha, do marido e dos pais logo pela manhã. Não tem qualquer outro objetivo de vida se não esse. Algo tão simples e tão essencial... Senti-me pequena, tão pequenina ao lado dela! 

Ao mesmo tempo que a Paula descrevia a sua experiência conheci um senhor, também ele da idade do meu pai, mais coisa menos coisa. À filha dele, que estava na sala de tratamento a fazer a 1ª quimio, foi diagnosticado o mesmo tipo de linfoma que me foi diagnosticado a mim. A partir do momento que tomou conhecimento deste facto o senhor nunca mais me "largou". Fez pergunta atrás de pergunta, como se eu fosse um anjo caído do céu pronta a responder a todas as suas dúvidas. Estava visivelmente perturbado e preocupado com a sua querida filha e com a forma como ela está a encarar a situação. Saquei do meu caderninho azul da Sandoz que o Pedro me deu e rasguei uma folha onde escrevi "Linfoma feito ao bife". Entreguei-lha para que ele a entregasse à filha. Gostava de a ajudar, mostrar-lhe que o futuro parece negro mas podemos aclará-lo se assim o quisermos. Vi  espelhado na cara dele o sofrimento e lembrei-me do meu pai. Tal como ele, aquele senhor diante de mim repetia vezes sem conta que faria o necessário para tornar a caminhada que a sua filha está prestes a enfrentar menos penosa. Tal como o meu pai, ele só lhe queria tirar as pedras do caminho. O pai da Paula também lá estava na sala de espera. Afinal todos os pais e mães querem o mesmo, amparar as quedas dos filhos, ajudá-los a levantar e a enfrentar o caminho de novo. 

Quase fizemos uma festa quando às 17.15h chamaram pelo utente das 15.30, Sala 1, cama 106! Lá nos instalámos, eu melhor que a Sarita, claramente! Catéter na mão, injeção de anticorpo na barriga e estava tudo pronto para a tão esperada soneca!


Até adormeci com a cabeleira posta! A pobre da Sarita é que ficou ali a olhar para mim e a atender os meus telefonemas, como se de uma secretária se tratasse! "A Guida está a dormir", "O tratamento começou tarde por isso não vamos daqui muito cedo!" ouvia eu, meia a dormir, sem abrir os olhos... Vá não foi assim tão mau, às 9 da noite já estávamos em Felgueiras! 

Saí de lá com uma sensação de cansaço extremo, como é habitual. Nunca corri uma maratona, mas a sensação não deve ser muito diferente! No dia seguinte a sensação mantém-se. Só mais tarde vem os enjoos e outras coisas mais. Não são fortes, não me impedem de comer, mas tenho de me obrigar um pouco. É um mau estar geral, física e psicologicamente. 
Mas passa, tudo passa!

Agora é aproveitar, da melhor forma possível, os 15 dias de descanso que aí vem! :)


domingo, 17 de janeiro de 2016

A Revolta dos Pastéis de Nata

Nos últimos tempos, por força das circunstâncias, tenho vindo a constatar que a alimentação no doente oncológico é da máxima importância. Todas as pessoas com experiência direta ou indireta nestas coisas dos cancros e das quimioterapias dizem que a alimentação não foi o ponto mais crítico da situação, mas todas relatam, sem excepção, algum episódio "gastronomicamente" menos positivo.

Tive sorte de, neste segundo ciclo, não ter enjoado de nenhum alimento (lá estás tu a meter a carroça à frente dos bois... o 2º ciclo ainda não acabou!), mas no primeiro não tive escapatória...

A minha amiga Carolina, vinda diretamente de Lisboa para me visitar no fim-de-semana antes de Natal, e sabendo como sou perdida por Pastéis de Belém (ou era!) trouxe consigo 2 caixinhas deles, bem fresquinhos! Nesta altura há quem pense que eu devorei 10 pastéis, mas vá, também não sou assim tão gulosa! Comi apenas um. Soube-me pela vida. É um sabor tão nosso, tão português!
Na impossibilidade de receber mais do que duas pessoas por dia no internamento do IPO, ofereci uma das caixinhas ao pessoal lá do sítio. Apesar de se destinarem a serem comidos por mim e pela minha família, soube-me bem poder dar um miminho tão saboroso às enfermeiras e auxiliares que estavam ao serviço naquela tarde.

Como eu estava a dizer, comi apenas um. Não me perguntem o que aconteceu, mas depois daquele pastel não consegui comer mais nenhum. Nem olhar para a embalagem tão característica daquela casa eu podia. De todas as vezes que o fazia ficava de tal forma nauseada que tive de os fazer desaparecer da minha mesa de apoio... Conhecendo a Carolina como conheço, e sendo ela uma menina de Cascais, sei que quando ler este post vai pensar: "Que aborrecimento, fui transtornar o apetite à miúda!". Minha querida, a culpa não é tua, descansa, mas sim do raio do tratamento!!

Apercebi-me, neste preciso momento, que passou exatamente um mês desde essa visita. E desde então que a aversão a pastéis de Belém se mantém. 
Já não sei a que propósito, no dia de Natal comentei esta aversão recentemente adquirida à mesa, enquanto jantávamos cá em casa. A minha avó, já de uma certa idade, não entendeu que falava dos ditos pastéis com uma certa repulsa e fez questão de frisar "Guida, sabes como eles são bons? Quentinhos, mesmo a sair do forno!". Eu tentei a todo o custo afastar aquela visão do inferno e, num alvoroço, todos os que estavam à mesa tentaram mudar de assunto. Ela, coitadinha, não percebeu. E resolveu frisar de novo "E com canela e açúcar em pó por cima?!". Foi risota geral!

Deixando os pastéis (que já não posso ouvir falar) e voltando à importância da nutrição... Como só tenho consulta de Nutricionismo no IPO marcada para fevereiro, empenhei-me em saber mais sobre o assunto. Comprei um livro, de umas autoras espanholas e, entretanto, a Belinha ofereceu-me outro, lançado recentemente, que compila receitas de vários chefs de cozinha especialmente dirigidas a doentes oncológicos em fase de tratamento.


Ainda não tive oportunidade de explorá-los a 100% mas como facilmente se prevê, estão repletos de dicas e conselhos nutricionais para prevenir a desnutrição durante os tratamentos de quimo e radioterapia. Têm, inclusivamente, indicação de quais os melhores alimentos para combater ou evitar determinados sintomas que frequentemente surgem. O "Comer para Vencer o Cancro" está dividido em duas partes, uma onde constam os tais conselhos e outra que aborda a nutrição como uma via de prevenção de certos tipos de cancro. Ou seja, não são livros que se destinam, exclusivamente, a doentes com cancro, mas sim ao público em geral, o que os torna menos enfadonhos e mais interessantes para todos cá em casa!

Com tantas receitas nem sabia por qual começar mas optei por uma do Chef Henrique Sá Pessoa, uma omeleta-soufflê de cogumelos acompanhada por uma salada de rúcula. Tentei que a minha avó participasse ativamente na confecção da receita, visto ser também ela uma grande entusiasta de cozinha e sábia no que diz respeito a cozinha tradicional portuguesa. 

Não sou uma fotógrafa exímia, apesar de essa área me atrair bastante, mas prometo que vou dar o meu melhor, não só na cozinha como na foto reportagem, pois o objetivo é partilhar algumas dessas receitas aqui no blog. Para minha e vossas delícias :)

sábado, 16 de janeiro de 2016

Just a bad day, not a bad life!

Aquela história de não ter de voltar ao IPO por uns dias... Saiu-me o tiro pela culatra! Se na quarta-feira à noite já tinha um pouco de dor de cabeça, na quinta-feira, quando acordei, estava que nem podia. As dores de cabeça eram tão fortes que me obrigaram a chamar pela minha mãe e a pedir-lhe para ligar para a minha médica, pois nem me sentia capaz de articular o que fosse ao telefone. 
No meio da dor vieram as náuseas e, consequentemente, os vómitos. Tive indicação imediata para me dirigir ao IPO. 
Felizmente, esta terra está dotada de bons acessos e boas auto-estradas é o que não falta por cá. Trinta minutos depois estava a dar entrada na clínica de onco-hematologia do IPO. Fui vista pela enfermeira Carla, já minha conhecida, que me pediu para aguardar na sala de espera até que o médico que estava de urgência tivesse disponibilidade para me ver. E porque quem tem uma mãe como a minha tem tudo, aguardei na sala de espera, coberta pelo seu sobretudo e com a cabeça apoiada no colinho dela. Não havia outra posição possível! Entretanto lá me chamaram e fui vista pelo médico. O jovem médico que me atendeu era extremamente simpático e notei nele uns traços do Pedro, provavelmente pelo sorriso fácil, pele e olhos claros, de que tanto gosto. 

Comecei a descrever o que sentia e, a certa altura, já era ele que me descrevia a mim os sintomas que  eu tinha. Puxou do caixote do lixo para eu vomitar mais uma vez e deixou-me à vontade enquanto foi verificar a disponibilidade da sala de enfermagem para me colocar a soro. Não comia desde o dia anterior e estava desidratada. 500 mL de soro, uma dose de metoclopramida para me tirar as náuseas e uma dose de dexametasona, um corticóide. Isto em cima de 100mg de tramadol, um analgésico, e um comprimido de ondansetron, para as náuseas também, que já havia tomado em casa. 

Com esta dose de cavalo a Guida deve ter ficado bem... Só que não! Continuei ali, no colinho da minha mãe, coberta com o casaco dela à espera que o médico me observasse outra vez. 
Quando me voltou a avaliar ficou contente ao constatar que eu já conseguia ingerir alguma coisa, ainda que essa alguma coisa fosse somente água. Observou-me, auscultou-me, falou comigo e explicou-me que estas reações são normais... E a tendência é para agravar!
Lá me prescreveu mais uns medicamentos e mandou-me para casa descansar. Mais cedo ou mais tarde a dor de cabeça, que entretanto se tornou uma enxaqueca gigante, vai passar.  

Desde o dia em que toda esta aventura começou, só tive 2 dias verdadeiramente maus. Este foi um deles e ocupa a 1ª posição do top. É daqueles dias tão maus, mas tão maus, que nos levam a pensar "Porra, nunca mais me vou queixar por porcarias de nada que não têm repercussão nenhuma na minha vida. Hoje sim, hoje foi um verdadeiro mau dia e será um dia do qual vou ter sempre memória!"

Mas o mau dia passou e a Gui está de volta. Hoje já consegui comer e até voltei a ter apetite. Pude deliciar-me com a melhor tarte de maçã do mundo (amavelmente oferecida pela Armandina), entre outras coisas. A partir de agora, é sempre a melhorar (espero)!!




quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Todos os sonhos do mundo

Pronto, estou livre de IPO por uns bons dias. Por mais condições que o hospital de dia tenha, tornam-se cansativos estes dias de tratamento seguidos, para mim e para quem me acompanha. Começa com a espera na sala de espera. Tenho feito um esforço por não chegar atrasada, como é meu hábito, mas acho que não me devo preocupar muito, uma hora de seca é sempre garantida! 
Depois de estar lá dentro, suporto melhor a passagem do tempo. Falo com as enfermeiras e voluntários, ponho-me a par das notícias (agora que descobri como se muda de canal no plasma) e vou dormitando, o tratamento dá-me imensa sonolência... 

Sono, cansaço, enjoos, secura da boca, perda de paladar, retenção de líquidos, estes são os efeitos mais imediatos. Felizmente, há medicamentos potentes que diminuem a intensidade de alguns destes efeitos. Mas há sempre um mau estar físico e psicológico que permanece e contra isso não há remédio. Hoje é um desses dias, em que me sinto arrebatada por essa má disposição. Consola-me saber que, ao fim de algum tempo, estes eventos desaparecem. Vão estes, vêm outros mas... Um dia de cada vez!

O que queria partilhar hoje não tem nada a ver com efeitos secundários, mas sim com esperança e fé. Quem conhece o IPO do Porto sabe que, depois de ter sido remodelado, salvo erro em 2010, foram espalhados pelos seus corredores quadros com as mais diversas mensagens. Algumas mais parecem retiradas de sites brasileiros, mas hoje encontrei uma bem portuguesa, que me encheu as medidas.



No corredor do edifício central para o Hospital de Dia, um túnel suspenso que se assemelha aqueles que ligam as portas de embarque dos aeroportos diretamente aos aviões, dou de caras com este quadro que me faz parar e refletir. Faz tanto sentido! É exatamente isto que me faz levantar da cama todas as manhãs e ver a vida com bons olhos. É isto que me faz sorrir mesmo em tempos de adversidade. Eu tenho muitos planos, para mim e para os meus, muita coisa boa para fazer nesta vida... 

Citando Fernando Pessoa (ou Álvaro de Campos?), tenho em mim todos os sonhos do mundo e por isso a minha existência não pode terminar aqui!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Confia

O post anterior não era nada do que eu queria escrever. À medida que ia avançando ia recordando alguns episódios e situações e deixei-me levar. Espero que isto não aconteça muitas vezes. Divagar não é bom quando se tem tanto para contar. 
Quero situar as pessoas, explicar como cheguei até aqui, dar a conhecer o processo todo.
Este é o meu 6º post nest blog e ainda não fiz nada do que queria. Tão típico meu. Quero fazer tudo e não faço nada.
A Pi diz que eu sou um laranja no código das cores que caracteriza pessoas. "Pá, esta miúda está sempre a falar na Pi! Pi acima e Pi abaixo". Get used to it. A Pi é mesmo uma peça fundamental na minha vida. Tal como muitas outras que terei oportunidade de citar.

Voltando à questão (estão a ver como me perco?). Tenho um plano para este blog, obviamente! E o plano para hoje passava pelos primeiros sintomas, que me levaram aos HUC e culminaram num internamento forçado! No entanto, assisti a um vídeo divulgado hoje nas redes sociais que me fez alterar os planos. Vou falar do meu cabelo.

Assim que soube que ia fazer quimioterapia comecei a pensar nos efeitos secundários.
É inevitável, toda a gente sabe que é um tratamento duro e pesado. Questionei-me, será que no tratamento que vou fazer o cabelo cai? Foi das primeiras perguntas que fiz à médica hematologista quando ainda andava pelos Hospitais da Universidade. Ela disse que sim mas também disse que, normalmente, cai. Ou seja, pode não cair, certo? Como já sei que fármacos me vão meter para a veia, deixa-me ir espreitar o RCM. O RCM é o Resumo das Características do Medicamento e é um documento que se destina a profissionais de saúde. E eu, armada em quase farmacêutica, vou sempre ver os RCMs! Em 60% dos casos cai. Isto para quase todos os fármacos. Ou seja, se um não o provocar, esse efeito pode perfeitamente ser provocado por outro. Tendo em conta que são 5 fármacos, a probabilidade de não cair é ínfima. Conformei-me. Disse logo que não queria perucas. Para além de ter feedbacks pouco positivos, são muitíssimo caras, e, sinceramente, eu tenho coragem suficiente para sair à rua com um lenço na cabeça, sabendo bem que vou saber o que as pessoas estão a pensar quando os olhares se cruzarem. 

Posto isto, decidi que iria optar, inicialmente, por um corte à rapaz, uma coisa alternativa e moderna. E depois, quando o cabelo começasse a cair, rapava. Era bom para toda a gente: para mim porque me ia habituando a minha sensível auto-estima às mudanças, para os outros porque os poupava ao choque do cabelo rapado. 
Neste ponto, pensei especialmente nos meus avós. Apercebi-me de que as figuras maiores, os pilares da família, em especial o meu avô paterno e a minha avó materna, pessoas "rijas", de valores e convicções fortes, estavam frágeis. Senti que o peso do diagnóstico se abateu sobre eles. E eles, que já contam com uma idade avançada, cederam. Por isso, tinha de os poupar ao máximo. Assim foi.


Acho que o cabelo curto me fica bem. Vou ponderar manter um corte curto quando o cabelo voltar a crescer.
Esta fotografia foi tirada na noite de passagem de ano. Foi a última selfie do ano e a última selfie com o corte que tanto gostei de fazer (créditos à Leta, a minha cabeleireira, que prontamente se ofereceu para me mudar o visual quando tudo isto surgiu).

No dia 1 de Janeiro o cabelo começou a cair. Assim do nada, no primeiro dia do ano, sem aviso prévio. Achei que estava preparada... Não estava. Meia abananada com aquele acontecimento peguei no carro e fui para o Porto, tinha combinado encontrar-me lá com o Pedro, o meu namorado. Não me lembro de ter lá chegado, de tão absorta que ia nos meus pensamentos. Chorei. E depois cheguei à foz, vi o mar e tudo acalmou. Era suposto ser um dia feliz, afinal era o primeiro dia do ano e eu tinha acordado com uma vontade tremenda de aproveitar bem o dia (que estava péssimo a nível meteorológico)! 
O cabelo continuou a cair nos dias seguintes. Bastou-me uma boa noite de sono para me recompor e passar a ver as coisas com naturalidade. Já sabia que ia acontecer e não é nada de outro mundo. É só cabelo, e a queda é um efeito secundário como outro qualquer! Combinei com o meu irmão, domingo ao fim da tarde vamos rapar isto. Assim foi (mais uma vez).

Chego à casa de banho e tenho a máquina à minha espera, bem como um lençol para pôr à volta do meu pescoço e um banquinho para me sentar. Depois de tudo pronto ouço o trabalhar da máquina de barbear do meu irmão, cujo pente era especial para cabelos. Escolhemos a altura do pente e sinto a máquina junto ao meu ouvido. Digo ao meu irmão para ter cuidado com a orelha, ao que ele me responde "Claro Gui, a orelha não cresce de novo!"

Correu tudo lindamente até ao momento em que me rapou, por completo, o lado esquerdo da cabeça, que já antes estava mais curto. Parou a máquina e disse-me "Pareces o Skrillex!". Para quem não sabe, o Skrillex é um DJ. "Posso mandar um snap?", disse-lhe que sim. Sorri para a foto, um sorriso meio amarelo, e já está! 

Enquanto manda e não manda, a minha mãe, que assistia a tudo, apodera-se da máquina e recomeça o que ficou a meio. Como duas crianças, ela e o meu irmão entram numa disputa pelo comando da situação, em que o meu irmão vence facilmente. 
Começo a ter um vislumbre do resultado final e vou-me abaixo. Fico com os olhos marejados de lágrimas e não consigo evitar que caiam... Olho para o meu irmão e vejo que está a chorar como eu, mas não para de cortar. Dá-me um beijo na face e continua. É para cortar, é para cortar. 
A minha mãe mantém-se firme. Gostava de saber o segredo dela, onde vai buscar tanta força para se manter assim. Dizem que sou corajosa... A minha mãe é que é, um poço de coragem, boa disposição e boas energias!

Acabou, apara aqui e ali e estou pronta. Há cabelos por todo o lado. Procuro uma madeixa intacta para guardar mas estão demasiado espalhados, não há hipótese. Para além disso a minha mãe já tinha começado a limpar, por isso esqueci o assunto. Vou até ao meu quarto e tenho dificuldade em olhar para as várias fotografias que tenho na parede. Volto para a casa de banho e enfio-me na banheira. Chorei tudo o que tinha a chorar e deixei as mágoas serem levadas com a água que corria e me enrugava a pele. Prometi a mim mesma que não iria chorar mais por um cabelo que vai voltar a crescer, muito provavelmente mais forte e saudável do que aquele que tinha. Só queria que nascesse liso, seria uma boa recompensa!

Não gosto de me ver de cabelo rapado, mas, entretanto, habituei-me. Não saio à rua sem um lenço ou gorro, está frio e não me posso constipar. Para além de que não quero que se veja. Só mostro a quem me pede, não tenho orgulho no meu corte. Tenho mais nos lenços e nas diferentes formas de os amarrar. A minha mãe descobriu um vídeo genial que ensina a fazer 10 "amarrações" em 5 minutos. Não preciso de ver mais nada, está aqui tudo o que é preciso.


Hoje fui surpreendida pelo vídeo da Sofia Ribeiro. Mais uma vez, foi a Pi que me mandou, e depois o Pedro também. Adorei. Revi-me do princípio ao fim, principalmente no fim. Chorei com ela de novo, mas foi só desta vez! Admiro a coragem dela para partilhar com o país, o mundo inteiro, um momento tão íntimo como é aquele. Ficamos ali, completamente desprotegidos e impotentes, a ver desaparecer aquilo que também faz de nós mulheres, aquilo que nos torna tão femininas, diferentes e especiais e altera completamente a nossa figura, a nossa imagem. Foi o momento mais duro até agora. Não há dor, enjoo, efeito secundário nenhum que supere a dor psicológica que é ver o nosso cabelo desaparecer, pelo motivo que é.

A Sofia, sendo uma figura pública, dispõem de muitos mais meios e recursos. Usa aquilo que está ao alcance dela, tal como eu. 
No final, a lição é a mesma para todos. 
Confiar. 
Vai tudo correr bem.

Natal quentinho quentinho!

Ufa! Finalmente terminei de responder aos inúmeros comentários e mensagens que me foram deixando ao longo do dia. Sei que não vai ser sempre assim, tenho noção que esta afluência se deve ao impacto provocado pela notícia, pela natureza dela.

Funciona mais ou menos como as visitas que recebo. Depois do meu primeiro ciclo de quimio esta casa entrou numa roda viva. Toca a campainha, toca o telefone, o cão ladra, a minha mãe pergunta lá de dentro se alguém abriu a porta, o meu irmão confirma e recebe as pessoas ao mesmo tempo que atende o telefone. O Charlie fica doido porque adora ter convidados (especialmente se os convidados ficarem para o lanche) e eu, sabendo que precisava de repousar - tinha feito uma punção lombar antes de ter alta no IPO - não conseguia recusar as visitas.
A Pi diz que eu gosto de viver no limite. Eu soltei uma gargalhada quando ela me disse isto mas, mais uma vez, tem a sua razão. Não devia mas deixei que, quem quisesse, me visitasse nessa altura mais crítica. A mim fez-me bem ter pessoas novas e diferentes a toda a hora, já bastava não poder receber quase visitas nenhumas no internamento; Por outro lado, sinto que há necessidade de me verem, em carne e osso, para acreditarem que estou realmente bem.

Apesar das vantagens que as visitas me poderiam trazer, num desses dias com mil visitas agendadas, fui obrigada pela Joana a abrandar o ritmo. Não sei se foi a Joana médica ou a Joana amiga que falou... Qualquer que tenha sido a Joana (provavelmente foram ambas), a necessidade de repouso absoluto ficou bem clara. Tinha passado uma noite péssima, com dores, ansiedade e pensamentos menos positivos, que surgem no desespero de querer dormir e não conseguir...
Logo pela manhã a Joana veio cá a casa ver-me. Mediu-me a tensão, auscultou-me, fez-me perguntas e conversamos um bocadinho. A minha amiga é daquelas pessoas que tem a capacidade de nos acalmar só pelo seu tom de voz, estão a ver? Passado um bocadinho voltou a medir-me a tensão, já tinha baixado. E nem foi preciso tomar nenhum ansiolítico!
Descansei durante a tarde, descanso esse que só foi possível ao colocar o telemóvel em modo avião. Faz de conta que fui viajar!! :)

Ao fim da tarde estava bem melhor e ainda bem porque era noite de Natal. Arrastei-me até à sala de jantar e consegui, pela primeira vez desde que tinha vindo do IPO, fazer uma refeição completa à mesa.
No dia seguinte estava ainda melhor. Tinha dormido como um anjo e acordei com uma disposição fantástica. Para além disso tinha recuperado o paladar a tempo de saborear os doces tão típicos desta altura do ano. Ainda por cima estava um sol delicioso!!

Foi um Natal bem quentinho, principalmente pela ternura que me chegou de todos os lados. Foi um Natal especial e diferente. O próximo Natal vai ser um Natal como foram todos os outros ao longo destes anos. Com a diferença de que vou olhar para trás e vou recordar este dia com a satisfação de ter vencido uma batalha nesta guerra que é o cancro.

Não é a quimio, é o cancro.